Assédio sexual a psicólogas: falsos pacientes atacam online tem se consolidado como novo campo de violência de gênero. Profissionais relatam que homens se apresentam como pacientes em crise, mas, minutos depois, passam a descrever cenas explícitas enquanto se masturbam diante da câmera ou ao telefone.
A sexóloga Caroline Januário, com quatro anos de clínica, atendeu um desses contatos. A chamada começou em tom de urgência emocional; logo se transformou em relato gráfico e explícito, acompanhado de ruídos que indicavam masturbação. “Eles criam uma atmosfera de empatia para nos obrigar a continuar ouvindo”, explicou à revista Marie Claire.
Assédio sexual a psicólogas: falsos pacientes atacam online
O roteiro descrito por Caroline repete-se em diversos consultórios. Primeiro chega a ligação ou mensagem insistindo por vídeo; depois, o suposto paciente detalha práticas sexuais sem constrangimento. A psicanalista Andrea Calheiro percebeu o padrão ao receber um formulário de anamnese repleto de descrições do próprio órgão genital. Ela bloqueou o contato imediatamente.
Andrea, que dirige um instituto de formação nos Estados Unidos, sofreu ainda duas invasões em aulas on-line: desconhecidos entraram para exibir pornografia e citar abusos contra crianças. “Precisei reestruturar todo o sistema de aulas”, contou.
Para a psicóloga Carolina Botelho, o choque veio na primeira sessão de emergência que atendeu virtualmente. Durante o encontro, o homem se masturbou diante da câmera e disse não conseguir se controlar em ambientes públicos. A profissional encerrou a sessão na hora, mas relatou sensação de impotência.
O assédio extrapola o consultório. A psicanalista Silvana* impulsionou conteúdo profissional nas redes e passou a receber, de madrugada, ligações de vídeo e fotos de genitálias. “Percebi que é algo muito mais amplo”, afirmou.
Especialistas relacionam o crescimento dos casos à popularização da terapia on-line, intensificada na pandemia. Eles apontam que grupos virtuais compartilham telefones de psicólogas, facilitando o acesso dos assediadores. A própria estrutura da profissão, majoritariamente feminina e voltada ao cuidado, é vista como porta aberta a abordagens predatórias.
“Há uma dinâmica de dominação que faz esses homens se sentirem à vontade para invadir nosso espaço”, avaliou Caroline. No caso de sexólogas, a sexualização da especialidade agrava o problema.
Imagem: Reprodução
Para reduzir riscos, Caroline passou a adotar várias barreiras: não atende números desconhecidos e exige identificação antes de marcar consulta. Quando identifica padrões suspeitos, indica colegas homens. Ela também defende que conselhos profissionais criem protocolos de proteção específicos para terapeutas.
A orientação legal é registrar boletim de ocorrência na Delegacia da Mulher. O Conselho Federal de Psicologia foi procurado pela reportagem original, mas ainda não se manifestou.
O debate sobre segurança no atendimento psicológico on-line ganha força entre profissionais de diferentes áreas, que buscam respostas coletivas para preservar o ambiente terapêutico.
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