Saúde mental na periferia: coletivo apoia mulheres em luto

Saúde mental na periferia ganha um suporte essencial no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, onde o coletivo Flor de Cacto acolhe mulheres que enfrentam perdas traumáticas. O grupo se tornou ponto de virada para a aposentada Terezinha de Jesus Freitas, 70 anos, que perdeu dois filhos para a violência e chegou a cogitar o suicídio.

Freitas conheceu o projeto em reuniões obrigatórias para famílias de adolescentes internados na Fundação Casa. Ali, psicólogas que depois fundariam o Flor de Cacto apresentaram a ela um espaço seguro de escuta, longe de julgamentos e próximo da realidade periférica.

Saúde mental na periferia: coletivo apoia mulheres em luto

Formalizado há dois anos, o Flor de Cacto surgiu da atuação prévia de profissionais que identificaram lacunas no atendimento público. “A UBS muitas vezes não dá conta, e os serviços de acolhimento à mulher em situação de violência também não”, explica a psicóloga Cristiane Uchôa, cofundadora do coletivo.

Os encontros quinzenais reúnem, majoritariamente, mães que perderam filhos para homicídios, acidentes ou drogas. Ao compartilhar histórias, elas constroem ferramentas de enfrentamento e ressignificação. Freitas, por exemplo, deixou de esconder a morte do primogênito — antes dizia que ele sofrera acidente de moto — e relatou ter se curado de dores crônicas nas mãos após as sessões.

Iniciativas como o Flor de Cacto refletem um cenário de desigualdade no acesso à terapia. Segundo a Organização Mundial da Saúde, quase 80% das pessoas em países de baixa renda não recebem tratamento adequado para transtornos mentais (OMS). Projetos comunitários, então, tornam-se essenciais para reduzir esse hiato.

O coletivo foi estruturado com apoio do programa Territórios Clínicos, da Fundação Tide Setúbal, voltado a fortalecer ações de cuidado em saúde mental nas margens da cidade. Para Fernanda Almeida, coordenadora do programa, reconhecer o sofrimento como fenômeno coletivo é passo crucial na reconstrução de projetos de vida.

Hoje, Freitas segue no grupo, agora mais ouvindo do que falando. “A força, o acolhimento e o carinho dessas mulheres foram a mola que me tirou do fundo do poço”, resume.

O Flor de Cacto planeja ampliar as rodas de conversa e capacitar novas lideranças locais, mantendo a proposta de cuidado gratuito e horizontal.

Para quem vive situação semelhante e busca ajuda, o coletivo realiza inscrições presenciais na região ou via redes sociais das fundadoras.

No Capão Redondo, a solidariedade transforma dor em resistência, provando que saúde mental também se faz em comunidade.

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Crédito da imagem: iStock

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