Sexualidade após câncer: impacto e apoio às pacientes

Sexualidade após câncer ainda é um tema pouco abordado nos consultórios, apesar de afetar diretamente a qualidade de vida de milhares de brasileiras em tratamento de tumores ginecológicos e de mama.

No Instituto Nacional de Câncer (Inca), no Rio de Janeiro, relatos de dor durante o sexo, ressecamento vaginal e perda de libido levaram a enfermeira Iris Bazilio a criar rotinas específicas para acolher essas queixas, até então silenciadas.

Sexualidade após câncer: impacto e apoio às pacientes

A iniciativa começou em 2013, quando Bazilio atendia mulheres com bexiga neurogênica decorrente de cirurgias pélvicas. Entre instruções técnicas sobre sondagem, surgiam lágrimas e confissões sobre agressões, parceiros ausentes e medo de urinar na cama durante a relação. “Eram assuntos que não apareciam com o médico”, relata a enfermeira.

Os efeitos adversos são múltiplos. Medicamentos como o tamoxifeno provocam ressecamento vaginal e fissuras; quimioterapia e radioterapia podem induzir menopausa precoce; já a mastectomia altera a autoimagem. Em consequência, uma revisão com mais de 4 000 mulheres mostrou salto de 17,5% para 86% na prevalência de disfunção sexual seis meses após o início da hormonioterapia, segundo o periódico Supportive Care in Cancer (2025).

Para Bazilio, o impacto psicológico supera o físico. Algumas pacientes retomam a atividade sexual apenas com hidratantes e lubrificantes vaginais, enquanto outras enfrentam barreiras ligadas a traumas antigos e crenças religiosas. “O câncer só escancara problemas que já existiam”, resume.

Em 2017, o Inca inaugurou o Ambulatório de Sexualidade para pacientes com tumores ginecológicos, sob liderança da enfermeira Carmen Lúcia de Paula. A proposta pioneira inclui orientação sobre uso de dilatadores, fisioterapia pélvica e encaminhamento para psicoterapia, quando necessário.

Ainda assim, a abordagem não faz parte dos protocolos oncológicos de forma sistemática. Pesquisa publicada em 2024 com oncologistas latino-americanos mostrou que 97% dos médicos chilenos reconhecem a relevância do tema, mas apenas metade conversa sobre sexualidade com as pacientes; no Uruguai, 31,6% raramente tocam no assunto. A principal barreira citada foi a falta de tempo.

O silêncio, ressalta Bazilio, pode vir também da família. Em um dos atendimentos, a filha de uma paciente pediu à equipe que dissesse à mãe para “parar de pensar nisso”. Muitas mulheres ficam anos sem relações e concluem que a vida sexual terminou. “Elas não sabem que o orgasmo libera ocitocina, serotonina e endorfina, substâncias que regulam o sistema imunológico e reduzem a dor”, explica.

Desde 2025, Bazilio atua na emergência do Inca, mas mantém o objetivo de treinar profissionais de saúde da rede pública para incorporar a sexualidade no cuidado oncológico. “Precisamos mudar esse paradigma”, afirma.

Diretrizes internacionais, como as do National Cancer Institute, reforçam a importância de discutir intimidade, oferecer lubrificantes, indicar fisioterapia pélvica e encaminhar para terapia sexual quando necessário. A orientação clara ajuda a reduzir mitos e melhora a adesão ao tratamento oncológico.

No Brasil, especialistas recomendam que a conversa comece já no diagnóstico. Equipes multiprofissionais devem informar sobre possíveis alterações hormonais, opções de preservação da fertilidade e recursos para manter o prazer, como exercícios de relaxamento do assoalho pélvico e produtos específicos para lubrificação.

Foto: Divulgação

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