Violação sexual infantil permanece como uma das formas de violência que mais crescem no Brasil. Entre janeiro e abril de 2026, o Disque Direitos Humanos recebeu 32,7 mil denúncias de crimes sexuais contra crianças e adolescentes, alta de 49,48 % em comparação com o mesmo período de 2025, de acordo com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC).
Para especialistas, o aumento reflete maior conscientização da sociedade e não necessariamente um avanço na prevenção. “As pessoas estão entendendo a importância de denunciar, mas falhamos em impedir que o abuso aconteça”, avalia a advogada Danièle Akamine, especialista em políticas públicas.
Violação sexual infantil: denúncias quase dobram em 2026
O boletim epidemiológico “Notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, 2015-2021”, da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA), mostra que 76,8 % das vítimas notificadas no período eram meninas. A faixa etária de 5 a 9 anos concentrou a maior parte das ocorrências: 53,8 % entre meninas e 60,1 % entre meninos. A reincidência esteve presente em mais de um terço dos registros.
Quando o recorte avança para a adolescência (10 a 19 anos), a desproporção cresce: 92,7 % das notificações envolveram meninas. Relação sexual forçada esteve na raiz de 66,4 % dos casos femininos e de 59,8 % dos casos masculinos. Em todas as idades, a maioria das vítimas era preta ou parda, e os agressores, em sua maioria, homens adultos conhecidos da criança.
A neurocientista comportamental Aida Leal destaca que, para meninos, o silêncio costuma ser ainda maior. “Se ouvirem que ‘homem não chora’, eles podem ter dificuldade de reconhecer o abuso. Sem permissão social para sentir medo ou vergonha, muitos dissociam ou se calam”, diz.
Leal defende conversas constantes sobre emoções e limites, com três eixos centrais: corpo, sinal interno e adulto seguro. “Ensinar os nomes corretos das partes do corpo, dizer que a criança pode recusar toques desconfortáveis e assegurar que não haverá punição ao relatar algo são passos essenciais”, resume.
A psicóloga clínica Maria Stephanie Cartaxo alerta para o risco de sobrecarregar as meninas com a sensação de ameaça constante. “Percepção de risco é importante. Porém, convencê-las de que o perigo é inevitável pode alimentar ansiedade permanente”, afirma.
Imagem: Getty s
Cursos de autodefesa, segundo Leal, devem ser apresentados como esporte, não como obrigação de autoproteção. “A responsabilidade principal continua sendo de adultos, instituições e sociedade”, pontua ela. Entidades internacionais, como o Unicef, reforçam a urgência de políticas integradas de prevenção, apoio psicossocial e fortalecimento de canais de denúncia.
Enquanto movimentos machistas ganham visibilidade nas redes sociais, Akamine observa uma possível naturalização de comportamentos violentos entre jovens. “Vivemos em um país machista e víamos avanços lentos. Com a ‘machosfera’, há risco de retrocesso”, afirma.
Para reduzir os índices, especialistas concordam: é preciso investir em educação sexual de base, formação de profissionais de saúde e assistência social, além de ampliar a rede de proteção. “Alfabetização corporal e emocional deve caminhar junto da escolar”, conclui Leal.
Crédito: Divulgação/MDHC
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