Ciclo menstrual deve ser sinal vital, diz pesquisadora. A epidemiologista brasileira Juliana Antero defende que mínimas alterações na duração do ciclo feminino já sinalizam desequilíbrio e merecem atenção médica imediata.
Atualmente, a medicina considera normal oscilar até 14 dias entre ciclos sucessivos. Para Antero, autora do livro “Votre cycle menstruel mérite d’être écouté”, esse parâmetro ignora indícios precoces de problemas hormonais, ósseos ou metabólicos.
Ciclo menstrual deve ser sinal vital, diz pesquisadora
Mineira de Belo Horizonte e ex-atleta de ginástica aeróbica, Antero ocupa hoje um posto de pesquisa no Instituto Nacional de Esporte, Especialização e Desempenho (Insep), em Paris. A cientista lembra que, quando competia, passava meses sem menstruar e recebia elogios pelo baixo percentual de gordura. A ausência do fluxo, no entanto, está ligada ao REDS (deficiência energética relativa no esporte), condição que fragiliza ossos e aumenta o risco de fraturas de estresse — problema que quase a tirou do Mundial de 2008.
Dados reunidos por ela mostram que apenas 9% dos estudos em ciências do esporte analisam exclusivamente mulheres, enquanto 71% investigam apenas homens. Segundo a pesquisadora, o argumento para a exclusão feminina costuma ser a variação hormonal, um círculo vicioso que impede diagnósticos precoces em atletas e na população geral.
O ciclo menstrual resulta de mensagens entre cérebro e ovários mediadas pelo hipotálamo, mesma área que processa estresse. Qualquer sobrecarga — noites mal dormidas, dieta restritiva ou treino excessivo — pode atrasar a ovulação ou suprimir a menstruação. Sem ovular, a mulher deixa de produzir progesterona, hormônio essencial à densidade óssea, à saúde mental e ao controle de sintomas como cólicas e tensão pré-menstrual.
Para Antero, reconhecer o ciclo como sinal vital permitiria agir antes que variações se transformem em doenças. “O corpo avisa com precisão”, diz ela, sugerindo intervenções simples, como ajustes de carga de treino, alimentação equilibrada e técnicas de respiração para aliviar cólicas e irritabilidade.
A proposta dialoga com recomendações da Organização Mundial da Saúde, que reforça a importância de monitorar indicadores reprodutivos femininos como parte de políticas públicas de saúde.
Imagem: Carole Nicco
Em março, a obra foi lançada na França; não há previsão de chegada ao Brasil. Enquanto isso, a autora incentiva profissionais da saúde e do esporte a incorporarem perguntas sobre o ciclo em consultas e avaliações físicas, prática que, segundo ela, pode prevenir lesões, osteoporose e até transtornos de humor pós-parto.
Para quem acompanha a pesquisa, o recado é claro: pequenas diferenças na menstruação não devem ser normalizadas. Elas funcionam como um termômetro capaz de orientar mudanças no estilo de vida e na rotina de treino antes que surjam diagnósticos graves.
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Foto: Carole Nicco


