Mulheres no esporte têm encontrado, em grupos colaborativos, uma forma de vencer o desânimo e a insegurança que ainda afastam muitas delas das academias tradicionais. Em São Paulo, a designer Flávia Souza, 28 anos, transformou a própria reabilitação de tendinite em um movimento que hoje reúne dezenas de participantes.
O projeto GymDivas nasceu quando Flávia criou uma conversa no aplicativo GymRats para se motivar nos treinos. A experiência coletiva tomou corpo, ganhou periodicidade mensal e, atualmente, conta com cerca de 60 integrantes que experimentam modalidades variadas por uma taxa simbólica de R$ 25.
Mulheres no esporte criam redes de apoio em São Paulo
Além de musculação, o grupo já praticou vôlei de praia, treinamento funcional, jumping, yoga, pilates solo, boxe e muay thai, sempre em parques públicos ou academias voltadas ao público feminino. A aula de defesa pessoal realizada em março, em alusão ao Dia Internacional da Mulher, tornou-se um marco: participantes que haviam sofrido agressões aprenderam técnicas para escapar de situações de risco.
A procura por espaços seguros reflete dados globais. Levantamento da plataforma RunRepeat com 3.774 frequentadores, divulgado em 2021, mostra que 56,37 % das mulheres relatam algum tipo de assédio na academia. Entre as entrevistadas, 25,65 % abandonaram o local ou migraram para outro, enquanto 30,13 % mudaram horários ou evitaram setores específicos do ginásio.
A personal trainer e campeã mundial de jiu-jítsu Carina Santi, fundadora do estúdio Almeida JJ Women & Kids Premium, avalia que as academias exclusivas para mulheres estão em expansão justamente por oferecerem ambiente sem julgamentos. “Elas perceberam que cuidar de si não é egoísmo; é necessidade”, afirma.
Carina observa que muitas alunas chegam carregando traumas que extrapolam a prática esportiva: medo de assédio, críticas ao corpo e pressão estética. Em um local formado só por mulheres, essas barreiras caem, e o exercício passa a ser ferramenta de saúde emocional, não apenas de performance física.
Para a professora universitária Patrícia Carvalho, 30 anos, integrante do GymDivas, treinar em coletividade aumentou a autoconfiança. “Podemos usar a roupa que quisermos, trocar dicas de segurança e apoiar umas às outras”, relata.
A Organização Mundial da Saúde reforça que a atividade física regular reduz o risco de hipertensão, diabetes e câncer de mama, além de aliviar sintomas da menopausa. Segundo a entidade, ao menos 150 minutos semanais de movimento já trazem benefícios (fonte: OMS).
Imagem: Divulgação
Mesmo assim, muitas mulheres convivem com culpa por reservar tempo para si. Flávia lembra que, na infância, meninos são mais incentivados a praticar esportes, enquanto meninas costumam permanecer em casa, cenário que afeta hábitos na vida adulta. Para driblar a falta de constância, o GymDivas premia quem se exercita três vezes por semana com tapetes de yoga, luvas ou bolsas esportivas: “Qualquer movimento vale; o importante é ter um momento só nosso”, diz a designer.
O impacto das redes femininas vai além dos parques e academias. Novas amizades, apoio psicológico e aumento da autoestima figuram entre os ganhos relatados pelas participantes. “Quando percebemos que não estamos sozinhas, mudamos a forma de enxergar o mundo e a nós mesmas”, resume Carina Santi.
No horizonte, Flávia planeja ampliar o calendário de atividades e firmar parcerias com fisioterapeutas e nutricionistas para completar o cuidado integral das associadas. Segundo ela, o crescimento orgânico do grupo mostra que existe demanda reprimida por espaços de acolhimento no universo esportivo.
Em um cenário onde o assédio ainda intimida e o tempo é escasso, iniciativas como o GymDivas demonstram que a união feminina pode ser o impulso que faltava para colocar o corpo em movimento, ressignificar a relação com a saúde e assumir o protagonismo no próprio bem-estar.
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