Luana Barbosa: 10 anos depois, julgamento segue pendente

Luana Barbosa permanece sem justiça dez anos após ser brutalmente espancada por três policiais militares em Ribeirão Preto (SP). Mesmo acusados de homicídio triplamente qualificado, os agentes nunca foram a júri e continuam em liberdade, cenário que motiva nova onda de protestos neste sábado (6), durante a 24ª Caminhada das Mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo.

O ato, marcado para as 13h em frente ao Museu de Arte de São Paulo (MASP), pretende transformar a memória de Luana em símbolo contra a violência policial, o racismo e a lesbofobia. A organização ressalta que a história de uma mulher negra, lésbica e periférica agredida por exigir revista feita por policial feminina resume opressões que persistem no país.

Luana Barbosa: 10 anos depois, julgamento segue pendente

Na tarde de 8 de abril de 2016, Luana, então com 34 anos, deixava o filho de 14 anos em um curso de informática quando foi abordada pelos PMs Douglas Luiz de Paula, André Donizete Camilo e Fábio Donizeti Pultz. Ela dirigia uma moto que os agentes consideravam roubada. Ao reivindicar a revista por policial mulher, direito previsto desde 1941, foi derrubada, algemada e sofreu chutes e socos, segundo testemunhas e laudo do Instituto Médico Legal (IML). A sequência de lesões causou isquemia cerebral e traumatismo cranioencefálico; Luana morreu dias depois no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto.

Apesar da gravidade do crime — classificado como cruel, por motivo torpe e sem possibilidade de defesa —, a Justiça rejeitou pedidos de prisão preventiva. Um dos envolvidos chegou a se aposentar e outro retornou ao trabalho operacional. Somente em 2025 o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou, por unanimidade, que o caso deixasse a Justiça Militar e fosse julgado pelo Tribunal do Júri comum. A sessão popular está agendada para 15 de fevereiro de 2027, em São Paulo.

Cobrança por celeridade e proteção à família

Para Débora Dias, da organização da caminhada, a demora institucional envia “mensagem de que certas vidas são violáveis”. A advogada criminalista Dina Alves, que representa a família por meio do Ministério Público, afirma que o deslocamento do processo só ocorreu após pressão popular e que parentes seguem expostos a intimidações, vivendo “vitimização secundária” pelo próprio sistema.

O Estado de São Paulo foi condenado, em primeira instância, a indenizar a família, mas recorreu. Enquanto isso, os acusados respondem em liberdade, reforçando, segundo Débora, o sentimento de impunidade que a mobilização deste sábado quer combater.

Violência contra lésbicas e bissexuais em números

Levantamento do dossiê “Lesbocídio — As histórias que ninguém conta”, elaborado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, registrou 180 assassinatos de mulheres lésbicas entre 2000 e 2017; 47% das vítimas eram negras. Já o Boletim Epidemiológico de Saúde da Mulher, do Ministério da Saúde, indica que 62,2% das mulheres bissexuais que denunciaram violência sexual eram adolescentes.

Para Débora Dias, esses recortes mostram que “corpos que fogem ao padrão heteronormativo e branco continuam sendo alvos preferenciais de violência”. Ela acrescenta que o reconhecimento do lesbocídio como crime de ódio ainda precisa avançar no Brasil, discussão que a homenagem a Luana Barbosa pretende impulsionar.

Pressão internacional e resposta do Estado

Em 2021, o Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos cobrou explicações do governo brasileiro sobre a lentidão no caso. O Itamaraty respondeu, mas manteve o teor em sigilo. O organismo classificou o assassinato como exemplo de racismo sistêmico perpetuado pelo Estado.

A advogada Dina Alves considera o júri de 2027 “teste definitivo da capacidade do Estado de punir a violência policial marcada por racismo e lesbofobia”. Para ela, uma condenação proporcional à crueldade do crime será sinal de que vidas de mulheres negras e lésbicas importam; o contrário reforçará a ideia de descartabilidade.

Enquanto o julgamento não chega, familiares, ativistas e a sociedade civil mantêm a memória de Luana viva, exigindo que nenhuma nova vida seja perdida em condições semelhantes.

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Crédito da imagem: Marie Claire

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