Ex-freira carmelita Grasiele Loureiro, de Santa Catarina, revela os desafios de voltar à vida civil depois de passar quase uma década em clausura, sem acesso pleno à tecnologia e à convivência social.
Entre os 26 e os 36 anos, a catarinense viveu em um convento carmelita dedicado à oração, ao trabalho interno e ao silêncio. Hoje, aos 43, ela é casada, trabalha com marketing digital e divulga sua história nas redes sociais, onde ultrapassa 700 mil visualizações.
Ex-freira carmelita narra adaptação após 10 anos de clausura
A decisão de ingressar no mosteiro partiu de um processo pessoal de conversão. Grasiele já participava de uma comunidade missionária, mas buscava mais tempo para oração. No Carmelo, assumiu votos de pobreza, castidade e obediência, com contato externo restrito a raras idas a médico, dentista ou votação.
A rotina começava às 4h30, com orações e estudos. O almoço era servido às 11h, seguido de uma hora de recreio — único momento em que as religiosas podiam conversar. À tarde, cada irmã se dedicava a trabalhos que geravam renda para o mosteiro; às 18h havia jantar, e o dia terminava por volta de 21h, após a última oração. “É uma vida de muito silêncio. Quem não tem esse desejo, não permanece”, recorda.
A maior dificuldade, conta, era a distância da família. As ligações eram permitidas apenas uma vez por mês. Depois de sofrer depressão, ela saiu do convento em 2010, retornou mais tarde, mas encerrou definitivamente a experiência em 2014 ao perceber que não tinha vocação definitiva para a clausura.
Fora do mosteiro, o choque tecnológico foi imediato. Grasiele desconhecia o WhatsApp, não sabia que os celulares haviam se tornado smartphones nem que a nota de um real havia saído de circulação. “Levei tempo para me readequar ao barulho, ao trânsito, às novidades. A gente se sente até envergonhada no começo”, comenta.
Apesar da saída, sua espiritualidade permaneceu intacta. Ela diz que repetiria a experiência, pois o Carmelo a ajudou a combater o orgulho e a buscar virtudes. O olhar sobre o matrimônio, contudo, mudou. Aos 33 anos, passou a enxergar beleza na família ao conviver com amigas casadas e, em 2019, subiu ao altar. Há seis anos, tenta realizar o sonho da maternidade e aguarda na fila de adoção.
Com diploma de publicidade e experiência em concursos públicos, Grasiele precisou atualizar o currículo. Enquanto aguardava nova convocação, vendeu brigadeiros e peças de crochê para gerar renda. Atualmente, atua em marketing digital e utiliza o TikTok para responder dúvidas sobre a rotina monástica, desde hábitos de higiene até detalhes da clausura. Segundo ela, o interesse é grande porque “é um mundo pouco acessível”.
Imagem: Pessoal
A vida carmelita segue atraindo curiosos e pesquisadores. Informações históricas e regras da ordem estão disponíveis em fontes como a Ordem dos Carmelitas, que detalha a tradição de isolamento e oração contemplativa.
No dia a dia, Grasiele continua a cultivar a fé: “Tento ser fiel aqui fora também”, afirma. Ao mesmo tempo, usa a experiência para incentivar quem viveu processos semelhantes de reclusão a buscar ajuda profissional, retomar estudos e reconstruir vínculos familiares.
Para ela, adaptar-se ao mundo exterior exige paciência e apoio: “O retorno não é fracasso, é sinal de coragem. Cada etapa da vida ensina algo que levamos para sempre”.
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Foto: Arquivo Pessoal


