Tendência grunge na maquiagem ocupa cada vez mais espaço nas redes sociais, substituindo o visual minimalista da estética clean girl e traduzindo, segundo especialistas, o estado emocional de uma geração marcada por crises e sobrecarga digital.
A psicóloga clínica Ana Clara Teixeira, especialista em comunicação de moda, observa que estilos de beleza sempre espelham “medos, revoltas e aspirações” coletivas. Para ela, crises recentes, como a pandemia de COVID-19, impulsionaram rotinas simples de skincare, mas o ideal de perfeição gerou frustração e abriu caminho para estéticas mais sombrias e catárticas.
Tendência grunge reflete clima social e emocional
Teixeira vê o retorno do grunge, do punk e de maquiagens escuras como “forma de canalizar a angústia” causada por tensões políticas, conflitos internacionais e incertezas econômicas. “Praticar a autoexpressão com um look rebelde permite protestar sem palavras”, resume.
Nicole Silbert, líder de marketing da WGSN na América Latina, concorda. Ela explica que a lógica das tendências segue um “pêndulo”: após anos de busca pela pele impecável, surge uma contra-tendência em busca de equilíbrio. O grunge, portanto, funciona como antídoto ao ideal de beleza perfeita recente.
A nostalgia também pesa. Recriar o visual dos anos 1990 oferece sensação de pertencimento a quem enfrenta hoje a “ansiedade algorítmica” descrita por Silbert. Para a geração Z, conectada desde cedo, o estilo borrado surge como escape à cultura da comparação e ao FOMO – o medo de ficar de fora.
As redes sociais aceleram esse processo. Um visual que nasce em poucos perfis pode viralizar em semanas, tornando-se global antes de entrar em declínio. “Plataformas amplificam sentimentos, transformando angústia, tendência e consumo em ciclo frenético”, diz Teixeira.
Esse dinamismo reacende o chamado índice do batom: em períodos de estresse, itens de beleza, mais acessíveis que roupas e bolsas, ganham força. Mesmo sem recessão econômica grave no Brasil, a compra de maquiagem segue como pequeno ato de empoderamento, oferecendo controle em meio à instabilidade.
Projeções apontam que, até 2026, a geração Z deve intensificar o questionamento de padrões estéticos e abraçar características antes vistas como “imperfeitas”. Silbert acredita que veremos maior abertura para visuais alternativos que priorizam bem-estar emocional em detrimento de normas rígidas.
Imagem: Reprodução Instagram zariahjulies
Para observadores de comportamento, o grunge atual não se resume à estética; ele aponta um desejo de reconexão genuína em um cenário hiperdigitalizado. Ao revisitar períodos de rebelião, jovens buscam referências consideradas mais autênticas, reforçando a ideia de que tendências de beleza funcionam como termômetro social.
No mercado, marcas já respondem com paletas de sombras escuras, batons vinil e delineadores borrados. Tutoriais de olhos esfumados e lábios difusos dominam o feed, enquanto hashtags relacionadas ao grunge acumulam milhões de visualizações.
Especialistas sugerem que consumidores pratiquem a estética de maneira consciente, reconhecendo o contexto emocional por trás da escolha. “Entender por que adotamos determinado visual ajuda a transformar a maquiagem em ferramenta de expressão saudável, não de imposição”, conclui Teixeira.
Em um mundo de mudanças rápidas, a tendência grunge funciona como espelho dos tempos: imperfeita, intensa e, principalmente, humana.
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Crédito da imagem: Reprodução/Instagram


