Polilaminina traz nova esperança a pacientes com lesão medular é o nome do avanço científico que colocou a bióloga Tatiana Sampaio, 59, no centro dos holofotes. A proteína, produzida a partir de placenta humana no Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular da UFRJ, demonstrou a capacidade de incentivar neurônios a formar novos axônios, reacendendo a possibilidade de recuperação motora em casos de paraplegia e tetraplegia.
O interesse pela pesquisa cresceu após o bancário Bruno Drummond de Freitas, 31, recuperar todos os movimentos quatro anos depois de um acidente que lhe causou tetraplegia. Ele participou dos estudos clínicos iniciais que testaram o composto em oito voluntários; seis apresentaram melhora parcial ou total.
Polilaminina traz nova esperança a pacientes com lesão medular
A descoberta, segundo Sampaio, soma vantagens práticas: por não ser um organismo vivo – diferentemente das células-tronco – o risco de rejeição é baixo, não exige imunossupressores e o produto pode ser fabricado e armazenado em freezers, pronto para uso emergencial logo após a cirurgia que estabiliza a coluna. O investimento estimado para levar o medicamento às farmácias chega a R$ 28 milhões.
A equipe aguarda autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar a fase 1 dos testes, que incluirá cinco novos pacientes em até quatro dias após o trauma, no Hospital das Clínicas do Rio de Janeiro e na Santa Casa. De acordo com protocolos regulatórios, essa etapa deve durar pelo menos três anos.
Dados das Diretrizes de Atenção à Pessoa com Lesão Medular, do Ministério da Saúde, indicam cerca de 8,4 mil novos casos de trauma raquimedular por ano no Brasil, majoritariamente homens vítimas de acidentes automobilísticos na faixa dos 30 anos – perfil semelhante ao de Freitas.
Mesmo com a repercussão, a rotina de Sampaio combina longas jornadas no laboratório e noites de samba no tradicional bar Vaca Atolada, no Rio. “Eu gosto de rua, de gente. Minha natureza não é ficar em casa quietinha”, afirma a pesquisadora, que mantém uma equipe de 15 alunos de medicina e se orgulha do ambiente diverso que lidera.
Formada integralmente na UFRJ, com pós-doutorados nos Estados Unidos e na Alemanha, Sampaio lembra que a laminina – proteína da matriz extracelular – já era estudada há três décadas. O passo decisivo foi polimerizar a molécula, gerando a polilaminina, e desvendar seu mecanismo de regeneração neural.
Imagem: Divulgação
Enquanto a patente pertence ao laboratório nacional Cristália, grupos nos EUA investigam aplicações em regeneração mamária e obesidade, e a USP avalia o uso em diabetes. A comunidade científica, destaca a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, celebra a determinação incomum de Sampaio em transpor a fronteira entre bancada e leito hospitalar.
No âmbito pessoal, a cientista ampliou o conceito de família ao acolher em casa a mestranda Raquel dos Santos Silveira, 28, ex-estagiária do laboratório. “A primeira vez que me senti parte de uma família foi na casa dela”, diz Raquel, órfã desde a infância.
Até que a aprovação regulatória seja concluída, Sampaio segue equilibrando pipetas e pandeiros, convicta de que a polilaminina poderá mudar o prognóstico de milhares de brasileiros com lesão medular.
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Foto: Arquivo pessoal


