Gordofobia: neta cria projeto após suicídio da avó

Gordofobia foi o gatilho para uma tragédia familiar que transformou a vida de Daiane*, neta de Aureni “Nica” Vieira, idosa que tirou a própria vida após anos de preconceito por causa do peso. Dez anos depois, a jovem lidera o projeto Mãos Doadoras, iniciativa que presta assistência a idosos em situação de vulnerabilidade.

Aureni conviveu com sobrepeso desde a primeira gravidez, aos 14 anos. Desilusões amorosas, a perda violenta do pai e dificuldades financeiras agravaram sua saúde física e emocional. Entre 2012 e 2013, ela tentou uma cirurgia bariátrica pelo SUS, mas foi excluída da fila após exames revelarem cardiopatia e cinco hérnias de disco.

Gordofobia: neta cria projeto após suicídio da avó

Segundo Daiane, um médico chegou a afirmar que a avó “morreria gorda”, comentário que a abalou profundamente. Depois disso, episódios de chacota na igreja e olhares de reprovação na praia intensificaram o sentimento de não pertencimento. Em 2014, Aureni se hospedou em um hotel, ingeriu mais de 400 comprimidos e morreu, deixando cartas de despedida para filhos e netos.

O luto levou Daiane a repensar a carreira de chefe de setor em um hospital. Ela passou a vender doces inspirados nas receitas de Nica e, com o apoio da família, fundou o Mãos Doadoras. O projeto fornece cestas básicas, móveis e roupas, além de acompanhamento emocional para idosos que vivem em abrigos ou afastados da família. “Muitos pedem apenas um abraço”, relata.

Dados da Organização Mundial da Saúde mostram que o idoso é grupo de risco para depressão e suicídio. Para Daiane, a história da avó reforça a necessidade de atenção psicológica aliada ao combate à gordofobia, discriminação que afeta não só a autoestima, mas também o acesso a tratamentos de saúde.

O Mãos Doadoras não opera como ONG formal; a equipe identifica necessidades, aciona colaboradores e entrega o que cada idoso necessita. Também promove apadrinhamento: voluntários escolhem um morador e oferecem presentes simbólicos ou companhia. “Transformar dor em propósito dá sentido à nossa trajetória”, afirma Daiane.

Ela acredita que, se Aureni tivesse recebido apoio adequado, poderia ter superado o desespero. “Não pude salvá-la, mas posso cuidar de quem ainda precisa”, conclui.

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Crédito da imagem: Foto: Arquivo pessoal

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