Engravidar naturalmente era um objetivo que a paulista Thaise Algarve, 31 anos, já considerava inalcançável depois de perder duas trompas e um ovário em decorrência de endometriose profunda e de complicações de um aborto espontâneo.
Mesmo com apenas 20% do aparelho reprodutor preservado, a gerente de vendas de Mogi das Cruzes viu o sonho da maternidade se concretizar primeiro por fertilização in vitro (FIV) e, quatro anos depois, de forma espontânea, contrariando prognósticos médicos.
Engravidar naturalmente: mulher sem trompas realiza sonho
Endometriose avançada comprometeu aparelho reprodutor
Aos 18 anos, Thaise descobriu a endometriose após uma hemorragia generalizada que a levou à mesa de cirurgia. Na ocasião, perdeu a trompa e o ovário direitos. Segundo a ginecologista Raquel Magalhães, do Hospital Nove de Julho, a doença inflamatória atinge uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva e costuma demorar até oito anos para ser diagnosticada, reflexo da normalização da dor feminina.
Perda da segunda trompa e primeiros desafios
Quatro anos depois, já casada com Tiago, Thaise engravidou rapidamente, mas sofreu um aborto espontâneo. Um dos fetos alojou-se na trompa esquerda, provocando ruptura do órgão e nova hemorragia interna. A cirurgia de emergência resultou na retirada da segunda trompa e deixou o ovário esquerdo fragilizado. Com pressão arterial em 4/6, ela quase morreu. Na alta, ouviu que as chances de gestação natural eram “praticamente inexistentes”.
Fertilização in vitro trouxe as gêmeas
Determinada a ser mãe, Thaise iniciou o processo de FIV. Após estimulação ovariana, conseguiu seis embriões; dois foram implantados e vingaram. A gestação gemelar teve complicações como eclâmpsia, diabetes gestacional e trombose. Com 31 semanas, nasceram Jade e Pérola, que passaram 40 dias na UTI Neonatal, mas hoje estão com cinco anos e saudáveis.
Surpresa da gravidez espontânea
Quando as gêmeas completaram dois anos e meio, Thaise doou os embriões restantes e decidiu focar na saúde. Uma dieta rigorosa trouxe fraqueza, insônia e sudorese, sintomas que ela atribuiu ao regime. Um teste de farmácia positivo, no entanto, levantou suspeita até de câncer, já que tumores podem produzir beta-HCG, hormônio da gravidez. O ultrassom transvaginal dissipou dúvidas: ela estava grávida de quase três meses, sem ter nenhuma trompa e com apenas parte de um ovário funcionando.
Cristal nasceu saudável e hoje tem um ano e quatro meses. O obstetra fotografou o interior do útero para comprovar que não havia trompas regeneradas nem indícios de nova FIV. “Meu médico disse que ela não poderia estar ali”, recorda a mãe.
Imagem: pessoal
O que dizem os especialistas
Casos de gestação natural sem trompas são raríssimos. A literatura médica sugere possibilidades como migração transperitoneal do óvulo ou microfístulas uterinas, mas nada conclusivo. A ginecologista Natália Paes, da Rede Américas, afirma que a ocorrência “reforça a necessidade de acompanhamento individualizado” e destaca que a FIV continua sendo o método indicado para mulheres sem trompas.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a infertilidade afeta 17,5% da população adulta, percentual que inclui casos provocados por endometriose, obstrução tubária e fatores masculinos.
Superação e esperança
Thaise compartilha a trajetória para conscientizar sobre endometriose, incentivar o diagnóstico precoce e mostrar que, apesar das estatísticas, “milagres médicos” podem acontecer. “Eu não tinha 80% do meu aparelho reprodutor e, mesmo assim, consegui engravidar naturalmente. Quero que outras mulheres saibam que não estão sozinhas”, conclui.
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Foto: Arquivo pessoal


