Um formigamento repentino na perna esquerda, em 2023, marcou o início da jornada de Ana Caroline Melotti, 24 anos, até o diagnóstico de esclerose múltipla. Em menos de duas semanas, a sensação evoluiu para uma fraqueza tão acentuada que subir escadas ou caminhar sem apoio tornou-se impossível.
No primeiro atendimento de emergência, a moradora de Hortolândia (SP) recebeu a hipótese de ansiedade e saiu apenas com orientações para “manter a calma”. Uma semana depois, voltou ao hospital; dessa vez, médicos cogitaram causas neurológicas ou reumatológicas. Enquanto a resposta não vinha, sua mobilidade piorava: precisou trancar temporariamente a faculdade de direito, que só continuou graças a caronas de colegas, e chegou a quebrar o pé devido à marcha instável.
O caminho até a conclusão correta incluiu sucessivos enganos. Uma reumatologista suspeitou de síndrome de Guillain-Barré; em seguida, um neurologista confirmou a mesma possibilidade e prescreveu corticoide e injeções de vitamina B12. Com o aparente alívio dos sintomas em 2024, Melotti acreditou que o tratamento estava funcionando, mas a melhora correspondia, na verdade, a um período de remissão da doença.
A situação voltou a se agravar em março de 2025, quando a advogada acordou com o lado esquerdo do corpo dormente — braço, perna e língua. A nova neurologista levantou a hipótese de um pseudossurto, piora temporária associada a infecções, mas solicitou ressonância magnética. O exame revelou lesões desmielinizantes no sistema nervoso central, confirmando a esclerose múltipla.
“Meu mundo caiu. Pesquisei e vi que não tem cura, exige acompanhamento constante e tratamento caro. Foi doloroso, mas também um alívio saber o que realmente tinha”, recorda.
Tratamento e limitações
Após uma disputa com o plano de saúde, Melotti começou a receber infusões de natalizumabe a cada 28 dias. Tontura, náusea e dor de cabeça são efeitos colaterais frequentes, porém ela mantém o protocolo. A fadiga crônica, sintoma invisível para quem observa de fora, é o que mais limita a rotina. “As pessoas acham que é preguiça, mas é um cansaço que não passa nem depois de dormir”, explica.
A doença deixou sequela permanente na perna esquerda, descrita por ela como “um elástico puxando” após longas caminhadas. Ainda assim, subir degraus voltou a ser possível e virou motivo de comemoração: “Conviver com a esclerose múltipla é uma luta silenciosa. Subir escadas hoje é uma vitória”.
Por que a esclerose múltipla afeta mais mulheres jovens
Segundo o neurologista Ricardo Pereira Gonçalves, consultor da ONG Amigos Múltiplos pela Esclerose (AME) e coordenador de ambulatórios de neuroimunologia na Universidade Federal de Santa Catarina e no Hospital Governador Celso Ramos, a maior prevalência da doença entre 20 e 40 anos está relacionada à reatividade elevada do sistema imunológico feminino nessa faixa etária.
Imagem: pessoal
O especialista lembra que, na década de 1990, o tempo médio para diagnóstico chegava a dez anos; hoje, no Brasil, a média é de dois. Pacientes que estreiam com sintomas motores, como Melotti, tendem a levar mais tempo para obter confirmação do que aqueles que apresentam alterações visuais.
Como os sinais podem desaparecer espontaneamente, a esclerose múltipla costuma ser confundida com ansiedade, labirintite ou problemas ortopédicos e oftalmológicos. A ressonância magnética aponta lesões típicas no cérebro e na medula, mas a condição ainda é considerada de exclusão — outras causas precisam ser descartadas.
Opções terapêuticas disponíveis no país
O Brasil oferece todas as terapias aprovadas internacionalmente, tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) quanto na rede privada. Há medicamentos orais, subcutâneos e intravenosos. Entre os desafios mais complexos estão os sintomas não visíveis, como fadiga e alterações emocionais, que impactam relações sociais e vida profissional. “Nem sempre são reconhecidos pelos outros, o que reduz a empatia e aprofunda o peso psicológico”, ressalta Gonçalves.
Melotti segue adaptando a rotina à nova realidade, equilibrando tratamento, carreira e vida pessoal. Cada degrau vencido, literalmente, reforça a disposição de enfrentar a enfermidade.
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