Hanseníase levou a recém-formada Ester Campos Rufino, de 26 anos, a trocar o jaleco de médica pelo papel de paciente ao perceber que seus sintomas eram idênticos aos dos casos que atendia no Sistema Único de Saúde (SUS) em Porto Nacional, interior do Tocantins.
A trajetória começou aos 13 anos, quando dores intensas nas pernas foram atribuídas ao crescimento ou a questões emocionais. Com o passar do tempo, vieram formigamento, dormência e perda de força nos pés, mas os episódios eram tratados como crises isoladas.
Hanseníase: médica identifica a própria doença no SUS
Já formada e atuando em uma Unidade Básica de Saúde na zona rural do município, Rufino participou de treinamentos específicos sobre hanseníase. Durante as aulas, reconheceu em si os relatos de perda de sensibilidade e problemas motores. Mesmo assim, negou a possibilidade até comentar o quadro com uma enfermeira, que a incentivou a buscar avaliação especializada.
O exame clínico, focado na avaliação neurológica e sensorial, confirmou o diagnóstico: Rufino via a agulha perfurar a pele sem sentir dor, sinal típico da doença que começa nos nervos e somente depois produz manchas ou nódulos cutâneos. A jovem acredita ter contraído a bactéria Mycobacterium leprae no contato diário com a avó, que apresenta a clássica “mão em garra”, mas resiste a realizar exames.
No Brasil, entre 22 e 23 mil novos casos anuais colocam o país atrás apenas da Índia em incidência, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Especialistas afirmam que a redução registrada após a pandemia não reflete queda real, mas dificuldade de diagnóstico. O dermatologista Marco Andrey, presidente da Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH), lembra que a doença é “primariamente neural e só depois dermatológica”, característica que provoca confusão com neuropatias e até fibromialgia.
Rufino observou esse cenário na própria unidade: de sete pacientes em tratamento, passou a investigar mais de 200 pessoas após capacitações, confirmando 70 novos diagnósticos. “Teve dia em que saí da sala para chorar, vendo gente sem visão ou força para andar”, lembra.
A hanseníase é curável desde 1980 por meio da poliquimioterapia, combinação de antibióticos distribuída gratuitamente pelo SUS. Tratamento precoce interrompe a transmissão e evita sequelas graves, como pé caído ou perda de força nas mãos. Rufino iniciou a medicação já em estágio avançado, arrastando o pé direito. Mesmo grávida, ajustou as doses e comemora a recuperação: mobilidade retomada e sensibilidade da pele em melhora constante.
Imagem: pessoal
Para o professor Andrey, o estigma histórico ainda é obstáculo. “As pessoas aprendem mais sobre hanseníase na igreja do que na escola”, diz. A falta de informação reforça preconceitos de uma doença que, hoje, tem cura e tratamento acessível. Informações confiáveis sobre sinais, diagnóstico e tratamento estão disponíveis no portal do Ministério da Saúde.
Ao contar sua história, Rufino quer aumentar o reconhecimento precoce. “Quanto mais falarmos, mais diagnósticos corretos teremos”, afirma. Ela segue na fase final da terapia, determinada a transformar experiência pessoal em ferramenta de sensibilização entre colegas e pacientes.
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Foto: Arquivo pessoal


