Transfobia contra mulheres cis cresce e acende alerta

Transfobia contra mulheres cis tem se tornado pauta urgente após sucessivos episódios de violência verbal e física, dentro e fora das redes sociais, que miram tanto celebridades quanto anônimas em todo o mundo.

Casos recentes envolvendo a atriz Bruna Marquezine e a personal trainer Kely Moraes ilustram como a chamada “transinvestigação” extrapola fronteiras, afetando qualquer mulher que fuja do padrão hegemônico de feminilidade.

Transfobia contra mulheres cis cresce e acende alerta

Desde que assumiu relacionamento com o cantor Shawn Mendes, Marquezine recebe comentários transfóbicos de internautas estrangeiros que questionam sua aparência. A estratégia, segundo a organização norte-americana GLAAD, consiste em analisar fotos para “expor” supostas pessoas trans, disseminando a ideia de que essa identidade seria depreciativa.

No Brasil, a violência também se manifesta fisicamente. Em 2023, a atriz Vaneza Francisca, da série “3%”, relatou agressões no metrô de São Paulo após ser confundida com mulher trans ao usar saia. Meses depois, em Recife, uma cliente foi agredida com socos na saída do banheiro de um restaurante sob a mesma alegação. Já em 2025, Kely Moraes foi impedida de entrar no banheiro feminino de uma academia pernambucana, ofendida por um casal que ordenou que utilizasse o banheiro masculino.

Casos parecidos ganharam repercussão internacional. A primeira-dama da França, Brigitte Macron, abriu processo em 2024 contra criadores de teorias conspiratórias que a apontavam como transexual; oito réus foram condenados a até oito meses de prisão. Michelle Obama também enfrentou boatos durante e após o mandato do marido.

Misoginia, racismo e o padrão inalcançável de feminilidade

A psicóloga Franchesca Aurora Weiss explica que a transfobia se ancora em um modelo restritivo de mulheridade que privilegia corpos brancos, magros e sem deficiência. “Qualquer mulher cis que não se encaixe nesse padrão corre risco de ser lida como ‘não mulher’”, afirma. Nesse contexto, mulheres negras, gordas, altas ou de cabelo curto tornam-se alvos preferenciais.

Para a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), o discurso transfóbico alimenta um clima de caça às bruxas que reforça hierarquias de gênero e raça. “Somos tratadas, nas narrativas cruéis da extrema-direita, como maiores ameaças”, denuncia.

A docente e ativista Jaqueline Gomes de Jesus acrescenta que sexismo e transfobia caminham juntos. “Uma mulher cis confundida com trans é violentada porque, na lógica dessa opressão, deve ser marginalizada”, diz, lembrando que o ideal de feminilidade amplamente difundido exclui corpos negros.

O que é a transinvestigação

O termo “transinvestigação” surgiu em fóruns conspiracionistas online e descreve o hábito de examinar minuciosamente fotos de celebridades para sugerir que seriam trans. Dados de 2022 da GLAAD apontam que 84% das mulheres trans já sofreram assédio relacionado à aparência, enquanto cresce a violência contra mulheres cis “fora do padrão”.

Especialistas veem relação direta entre transfobia e misoginia: ambas reforçam a ideia de que corpos femininos devem seguir regras rígidas. Quando essas regras são quebradas — seja por identidade de gênero, raça, idade ou estética — a reação violenta tende a escalar.

Organizações de direitos humanos defendem políticas públicas de educação e campanhas de conscientização que combatam estereótipos de gênero e raça, além de leis mais severas para crimes de ódio.

Para Weiss, a solução passa pelo reconhecimento de que “mulheres trans e travestis ainda lutam para serem vistas como humanas”. Ao legitimar a diversidade de expressões femininas, diz ela, a sociedade protege todas as mulheres, independentemente de identidade de gênero.

No Brasil, iniciativas como a criminalização da transfobia pelo STF, em 2019, representam avanços, mas especialistas alertam que a aplicação da lei ainda é desigual — especialmente quando a vítima é uma mulher cis confundida com trans.

Enquanto isso, vítimas relatam medo constante em espaços públicos. “Não é a primeira vez que sou confundida, mas foi a primeira em que sofri violência”, desabafou Vaneza Francisca após o ataque no metrô. Episódios semelhantes reforçam a urgência de discutir preconceitos que atravessam identidades e colocam em risco a integridade de todas as mulheres.

Crédito da imagem: Reprodução / Instagram

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