Golpista do amor é a expressão que define o drama vivido pela inglesa Tamsin, de 50 anos, que perdeu casa, emprego, economias e acumulou dívida de £50 mil após dois anos de manipulação emocional.
No verão de 2022, no sudeste da Inglaterra, Tamsin conheceu Mike, mecânico dez anos mais velho que se apresentava como cristão divorciado e investidor bem-sucedido. A atenção constante iniciada pelo WhatsApp transformou-se em um percurso que lhe custou quase tudo.
Golpista do amor: inglesa perde tudo em golpe sentimental
Seis meses após o primeiro encontro, o suposto mecânico já dominava a rotina da vítima. Alegou ter câncer no intestino que avançou de “tamanho de moeda” a “tumor terminal do tamanho de uma toranja”. A artimanha, apontam especialistas em segurança citados pelo The Guardian, é comum: cria empatia, silencia questionamentos e abre espaço para pedidos financeiros.
Comovida, Tamsin começou a pagar hotéis “com banhos quentes” para aliviar o sofrimento de Mike. O golpe escalou quando um suposto advogado informou, por mensagem, a morte do homem. Dias depois, ele reapareceu dizendo que o comunicado fora um equívoco na Suíça, onde buscava tratamento.
Decidida a não “perdê-lo novamente”, como relata, Tamsin deixou o marido, pediu demissão do emprego e vendeu carros para bancar uma vida nômade pelo Reino Unido. Durante meses, o casal viajou por Escócia e País de Gales, sempre com despesas custeadas pela vítima até cartões de crédito estourarem.
Isolada de amigos e familiares, ela chegou a vender o próprio celular. “Eu tinha investido tudo. Meu coração não suportaria mais dúvidas”, disse ao relembrar o período em que dormia no carro, sem recursos.
O desfecho ocorreu na casa dos pais, onde descobriu que Mike era procurado por múltiplos crimes sexuais. Preso no mesmo dia, ele cumpre pena de 22 anos por delitos sem ligação direta com Tamsin, já que as autoridades consideraram que o abuso emocional “não se sustentaria em tribunal”.
Vulnerabilidade emocional e manipulação financeira
Especialistas destacam que golpistas do amor identificam lacunas emocionais. Na época, Tamsin era a principal provedora da família, sentia-se exausta e invisível no casamento de quase 20 anos. A atenção constante de Mike funcionou como isca perfeita.
Depois de perder a casa, o emprego e as economias, a vítima enfrenta agora a tarefa de quitar £50 mil (aproximadamente R$ 358 mil) em dívidas. Credores, em sua maioria, não reconhecem o estelionato sentimental como justificativa para anistia.
Recuperação lenta e estigma duradouro
Dois anos após o fim do pesadelo, Tamsin vive com os pais, vendeu pertences pessoais e tenta reconstruir o relacionamento com o ex-marido e a filha adolescente. “Estou envergonhada, constrangida, magoada”, afirma.
Casos como o dela reforçam a importância de políticas que reconheçam e punam o estelionato emocional, além de oferecer suporte financeiro às vítimas. Enquanto isso, organizações como o Serviço de Apoio às Vítimas britânico auxiliam na reestruturação de suas vidas.
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No Brasil, entidades de proteção ao consumidor e à mulher recomendam atenção a pedidos de dinheiro rápidos, inconsistências em histórias médicas graves e insistência em isolamento social como sinais de alerta para um possível golpista do amor.
“O câncer é usado em quase todos os casos”, explica Anna Rowe, especialista em segurança. A doença, segundo ela, cria “o cenário perfeito” para exigir cuidados urgentes e dificuldades financeiras falsas.
A narrativa de Tamsin evidencia que qualquer pessoa pode ser vulnerável a esse tipo de fraude, especialmente em momentos de fragilidade emocional. Denunciar comportamentos suspeitos e buscar ajuda de órgãos competentes são passos essenciais para interromper ciclos de abuso.
Para quem caiu em armadilhas similares, advogados recomendam reunir provas, registrar boletim de ocorrência e contatar instituições financeiras a fim de tentar suspender cobranças originadas do golpe.
Casos de estelionato sentimental, embora cada vez mais comuns com a popularização de aplicativos e redes sociais, ainda carecem de legislação específica em muitos países, o que dificulta punições e reparações financeiras.
A orientação é desconfiar de pedidos de empréstimos, cruzar informações fornecidas pelo pretendente e manter familiares informados sobre novos relacionamentos, principalmente quando se desenvolvem rápido demais.
Embora ainda humilhada, Tamsin espera que seu relato sirva de alerta: “Se minha história poupar outras pessoas, já terá valido a pena falar”.
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