Sophie Calle volta às livrarias brasileiras com a quarta edição de “Histórias Reais”, publicada pela Relicário. Aos 72 anos, a autora francesa reforça a ideia de que envelhecer é também reescrever a própria narrativa, sem perder o rigor literário que marcou sua trajetória.
O volume, de 152 páginas, reúne lembranças, imagens e pequenos textos que Calle começou a organizar em 1994. A cada tiragem esgotada, a artista revisita o material, decide o que permanece e adiciona novos fragmentos de vida cotidiana, convertendo memórias em um ritual de edição constante.
Sophie Calle lança nova edição de Histórias Reais
Nesta atualização, a fotógrafa afirma que “o livro envelhece comigo”. Nem sempre surgem fatos inéditos; às vezes, uma lembrança adormecida ganha sentido anos depois. Outras vezes, uma fotografia esquecida encontra lugar entre as páginas. O processo, explica, não busca a “verdade absoluta”, mas uma construção literária em que o real serve apenas de ponto de partida.
Calle questiona a fronteira entre público e privado desde os anos 1970. Obras como “Os Dormidores” (1979), na qual convidou desconhecidos a dormir em sua cama, e “Cuide de Você” (2007), resposta coletiva a um e-mail de término amoroso, fizeram dela um nome associado ao confessionalismo. Entretanto, a artista rejeita a ideia de exposição ilimitada: “As pessoas sabem menos de mim do que de qualquer amigo delas no Facebook”, provoca.
Boa parte da força de “Histórias Reais” vem dessa seleção minuciosa. Se o tema é um romance, o leitor nunca descobrirá onde começou ou como acabou; apenas o recorte que interessa à autora permanece. Essa posição difere do fluxo ininterrupto das redes sociais e reflete uma estratégia de autodefesa para uma memória que a própria Calle considera falha.
A questão de gênero atravessa sua obra. Em entrevistas, ela reconhece que ser mulher — e de estatura pequena — frequentemente reduz a intimidação e permite experiências que talvez fossem impossíveis para um homem. Essa percepção aparece em projetos como “Cuide de Você”, quando mais de cem mulheres analisaram a correspondência recebida por Calle, transformando dor particular em reflexão coletiva.
Segundo a Tate Gallery, a artista é uma das pioneiras da autoficção visual, ao mesclar fotografia, texto e performance para investigar identidade, intimidade e perda. Mesmo assim, mantém distância das redes, preferindo confiar ao papel as recordações que poderiam se apagar.
Imagem: Divulgação
Na edição brasileira, o livro chega por R$ 89,90, com nova capa e relatos inéditos. Calle admite que, um dia, talvez o fio dessas narrativas se esgote: “Continuo com o mesmo homem, todos que amei já morreram… então a vida está mais calma”. Por ora, contudo, ela segue reunindo fragmentos para impedir que o tempo apague o ordinário.
Nesta coletânea, “só restam lembranças”, mas a autora mostra que recordações editadas podem ganhar nova vida — e novos leitores — a cada tiragem.
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Crédito da imagem: Divulgação/Relicário Edições


