Unidos da Tijuca retrata Carolina Maria de Jesus no enredo. A escola de samba entra na Marquês de Sapucaí, nesta segunda-feira (16), disposta a conquistar o título do Grupo Especial do Rio de Janeiro ao celebrar a escritora mineira que denunciou a desigualdade social no best-seller “Quarto de Despejo”.
Com apoio de pesquisadores, o desfile pretende ir além do diário que tornou Carolina mundialmente famosa, ressaltando facetas pouco conhecidas de sua trajetória artística e transformando a avenida em palco de denúncia contra o apagamento de intelectuais periféricos.
Unidos da Tijuca retrata Carolina Maria de Jesus no enredo
A pesquisadora Fernanda Felisberto, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), acompanhou todo o desenvolvimento do tema. Segundo ela, a proposta central é retirar a autora “do quarto de despejo” e garantir-lhe o direito à biografia completa. “Todos os escritores têm infância, família e vida além da obra mais popular”, defende.
Nascida em 14 de março de 1914, em Sacramento (MG), Carolina teve infância marcada por migração e restrições impostas a pessoas negras no Brasil pós-abolição. Ainda assim, perseguiu o sonho literário enquanto sustentava a família catando papel nas ruas de São Paulo. Na Sapucaí, passagens sobre sua formação, sua chegada à capital paulista e a produção de romances, peças teatrais e um álbum musical estarão representadas nos carros alegóricos.
O samba-enredo também faz referência à repercussão internacional de sua obra. “Quarto de Despejo” está traduzido para 13 idiomas e, atualmente, ganha versão em Guarani. Para Felisberto, lembrar que a escritora publicou poesias, romances e canções reforça a pluralidade de talentos normalmente ignorada pelo mercado editorial da época.
Além de realçar a dimensão múltipla da homenageada, a agremiação pretende gerar reflexão sobre racismo estrutural e desigualdade. O refrão repete “muda essa história”, alertando para a dificuldade que intelectuais fora do “pacto de branquitude” enfrentam para serem reconhecidos. De acordo com a pesquisadora, o Carnaval pode alcançar públicos que a academia não atinge, estimulando novos leitores a buscar títulos como “Casa de Alvenaria” e “Diário de Bitita”.
Parte da narrativa também se conecta à realidade de muitas integrantes da própria escola. Mulheres que conciliam maternidade solo e administração da casa encontram na figura de Carolina inspiração e representatividade. Essa identificação direta, segundo Felisberto, garante força emotiva ao desfile.
A proposta de ressaltar todos os estágios da vida da autora vai na contramão do rótulo restritivo de “catadora que escrevia”. Conforme registra a Enciclopédia Britannica, Carolina publicou, em 1961, o álbum “Quarto de Despejo: Carolina Maria de Jesus Cantando Suas Composições”, no qual apresentou samba, marchinha, baião e valsa. Essa produção musical também ganha espaço coreográfico na Tijuca.
A escola tijucana aposta ainda no poder visual para traduzir temas sociais. Carros alegóricos retratarão a favela do Canindé, o centro da cidade e a biblioteca particular que Carolina sonhava ter. A comissão de frente, por sua vez, simboliza o rompimento de correntes, lembrando os 350 anos de escravidão contrastados com apenas 137 anos de liberdade formal no país.
O desempenho da Unidos da Tijuca será avaliado em critérios como enredo, fantasia, alegoria e evolução. Caso conquiste boas notas, pode quebrar um jejum: o último título da escola ocorreu em 2014. Nos bastidores, carnavalescos enfatizam que a escolha do tema nasceu do desejo de homenagear uma artista cuja relevância transcende limites regionais e temporais.
Imagem: Reprodução
Carolina Maria de Jesus morreu em 13 de fevereiro de 1977, aos 63 anos, em Parelheiros, na zona sul paulistana. Mesmo após o sucesso comercial inicial, terminou a vida isolada, ignorada por grande parte do mercado editorial. Quase meio século depois, a autora volta aos holofotes em pleno Sambódromo, reafirmando voz potente e atual.
O desfile também pretende incentivar escolas e universidades a incluírem a obra completa da escritora em currículos literários. Organizadores esperam que o público saia da avenida motivado a explorar títulos posteriores, reconhecendo a coerência de uma carreira construída sob enfrentamento constante ao preconceito.
Se confirmada a boa recepção, a iniciativa pode abrir caminho para que outros nomes da literatura negra brasileira ganhem espaço na festa. Para Felisberto, o Carnaval, pelo alcance midiático, gera “tradução plástica bem-sucedida” da história, multiplicando leitores e devolvendo à homenageada o lugar de destaque que sempre buscou.
Em resumo, a Unidos da Tijuca transforma a passarela do samba em tribuna pela memória de Carolina Maria de Jesus, apresentando-a como escritora, poeta, compositora e voz fundamental contra a desigualdade brasileira.
Quer continuar informado sobre temas de representatividade e cultura? Acesse nosso portal e acompanhe outras matérias especiais.
Foto: Thaís Brum
Foto: Rafael Catarcione


