Alice Pataxó, comunicadora e ativista nascida na comunidade Pataxó, no sul da Bahia, tem usado as redes sociais e fóruns internacionais para projetar o protagonismo indígena, conciliando humor, informação e denúncia.
Aos 15 anos, a jovem despontou como liderança ao defender sua aldeia durante uma reintegração de posse. Hoje, aos 22, soma discursos na COP26, indicação de Malala Yousafzai à lista da BBC de mulheres mais influentes do mundo (2022) e participação em iniciativas como o Fundo Malala e o projeto Cunhataí Ikhã.
Alice Pataxó exalta protagonismo indígena em palcos globais
Entre a visibilidade em eventos planetários e a invisibilidade ainda imposta aos povos originários no Brasil, Alice explica que sua comunicação precisa dialogar tanto com o público externo quanto com a própria comunidade. “Quero que todos compreendam o que estamos construindo como liderança”, afirma.
Humor e cultura pop como ponte
Nos perfis digitais, a ativista mescla dados precisos com campanhas irreverentes, como a “Indígenachella”, para mostrar que a juventude indígena também consome rap, moda e memes. Ao expor a rotina e referências pessoais, Alice busca derrubar estereótipos e ampliar o alcance do discurso político.
Ataques virtuais e engajamento
A comunicadora admite que as ondas de hate já foram mais duras, mas o amadurecimento trouxe nova postura: “Se estou incomodando, é porque algo certo estou fazendo”. Ela passou a encarar críticas como oportunidade de diálogo, criando vídeos extras quando o tema exige mais que um minuto.
Estética indígena como resistência
Questionada sobre o olhar colonial que exotiza adereços, a jovem recorda que cada pintura corporal carrega significados e identifica etnias diferentes. O aíptxuy no nariz, por exemplo, chama atenção e serve de porta de entrada para explicar a simbologia de seu povo.
Ministério dos Povos Indígenas e desafios legislativos
Para Alice, a criação da pasta comandada por uma mulher indígena representa marco histórico, ainda que a estrutura esteja em construção. Ela acredita que a coordenação entre o Ministério e a Funai amplia a eficácia das políticas, mesmo diante de pressões como o PL 490. “O racismo anti-indígena está escancarado”, alerta.
Reportagem recente da BBC ressalta como decisões judiciais e projetos de lei afetam diretamente a demarcação de terras, corroborando a análise da ativista sobre o cenário legislativo.
Imagem: Eleora Cintra
Espiritualidade, território e tempo
Ao lembrar que a luta indígena é também espiritual, Alice reforça que o território ancestral guarda vínculos que vão além do aspecto ambiental. Ela mesma se vê entre dois tempos: o linear das métricas digitais e o cíclico da tradição. “Precisamos transitar entre eles sem perder o que cultivamos”, resume.
Para lidar com a pressão de “estar sempre resistência”, a ativista aposta em parcerias e na leveza dos vínculos construídos durante a jornada. “Nem tudo é ruim; existe alegria”, diz, apontando a necessidade de reconhecer limites individuais.
Em meio ao ritmo acelerado das redes, a comunicadora convida o país a “voltar a ouvir o pulmão do Brasil” e a adotar um olhar menos fetichizado sobre culturas originárias. Essa escuta, segundo ela, exige reconhecer que usufruir de saberes indígenas implica também defender direitos e territórios.
No horizonte, Alice Pataxó pretende ampliar projetos de formação de lideranças femininas e seguir usando o humor como arma política — sem abrir mão do respeito à ancestralidade.
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Foto: Eleonora Cintra


