Amor líquido: relações afetuosas seguem lógica de mercado é a síntese de uma discussão que volta a ganhar fôlego no início deste ano: a fragilidade dos vínculos afetivos na esteira de critérios de consumo e descarte.
A tese do sociólogo Zygmunt Bauman, segundo a qual os laços modernos se tornaram fluidos e provisórios, reverbera em produções culturais, na literatura de psicanálise e até em realities de namoro. A lógica do “cálculo do amor” — maximizar prazer e minimizar dor — norteia aplicativos de encontros, roteiros de cinema e tomadas de decisão fora das telas.
Amor líquido: relações afetuosas seguem lógica de mercado
O filme “Amores materialistas” (2025), de Celine Song, parte da premissa de que potenciais parceiros são filtrados por critérios estritamente materiais, do salário anual à altura. Em cena, a protagonista atua como cupido corporativo: cruza listas de desejos e impedimentos para entregar o “match” ideal, ecoando plataformas de luxo já existentes no universo digital.
Em “Por inteiro” (2024), dirigido por William Bridges, o dilema é acreditar em uma relação autêntica diante da multiplicidade de opções oferecidas por testes algorítmicos. O medo de perder alguém supostamente mais compatível cria um ciclo de comparação permanente — reflexo direto da lógica de mercado aplicada ao afeto, onde pessoas são avaliadas como produtos em catálogo.
Bauman interpreta essa recusa ao compromisso como defesa perante o pavor da solidão. Nas suas palavras, multiplicam-se “relacionamentos de bolso”: fáceis de carregar, rápidos de descartar. A busca incessante pela conexão “perfeita” reinicia tudo sempre que surge a menor frustração, perpetuando o círculo do amor líquido.
O reality show “Love Is Blind” (“Casamento às Cegas”, no Brasil) reforça o paradoxo. Ao propor que o “verdadeiro amor” floresça sem a influência da aparência física, o programa tenta quantificar sentimentos e conter riscos. Porém, quando os participantes se veem diante dos corpos e das rotinas reais, o cálculo se desfaz ou é refeito — quase sempre com tolerância mínima a frustrações.
Na obra “A gente mira no amor e acerta na solidão”, a psicanalista Ana Suy questiona a crença de que encontrar a “alma gêmea” supre todas as faltas. Para ela, a solidão é condição humana inescapável, e o trabalho psíquico consiste em aceitar imperfeições próprias e alheias. A tentativa de criar um vínculo à prova de falhas, segundo Suy, só aumenta o isolamento.
Esse deslocamento dos afetos para o terreno utilitarista tem sido discutido ainda em veículos de grande circulação. A BBC analisou como aplicativos incentivam decisões de compra no amor: protagonistas selecionam perfis com o mesmo desprendimento de quem escolhe produtos em prateleiras digitais.
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Em síntese, o “cálculo do amor” converge para dois polos: a urgência de segurança e o receio de compromissos duradouros. Ao transformar o outro em objeto de benefício máximo, minimizam-se as chances de vivenciar encontros genuínos, que necessariamente incluem vulnerabilidade e risco.
Para muitos especialistas, suportar o desamparo inerente à existência é passo fundamental para romper o ciclo do amor líquido. A aposta envolve renunciar a listas fechadas de requisitos e aceitar a inevitável dose de frustração que acompanha relações de carne e osso.
No fim, a fluidez contemporânea traz à tona um impasse: seguir comprando ilusões de completude ou assumir que o vínculo, imperfeito por natureza, demanda entrega sem garantia de retorno.
Ao revisitarmos estreias de cinema, reality shows e estudos acadêmicos, fica evidente que o amor atual reflete as mesmas métricas de produção e consumo que regem outros mercados. Entender essa dinâmica é o primeiro passo para decidir se ela deve ou não pautar o próprio modo de se relacionar.
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