Biografia de Dercy Gonçalves é o ponto de partida do novo livro “Dercy: A diva debochada”, da jornalista Adriana Negreiros, que revisita os 101 anos de vida da atriz para além do estereótipo da “velhinha desbocada”. A obra reúne episódios pouco explorados, como as violências que a artista enfrentou, e reconstrói sua importância para a cultura nacional.
Nascida Dolores Gonçalves Costa em Santa Maria Madalena (RJ), Dercy atravessou 32 governos, duas ditaduras e protagonizou circo, teatro de revista, rádio, cinema e TV. Para Negreiros, reduzi-la aos palavrões ignora o legado de uma figura “essencial para o entretenimento brasileiro”.
Biografia de Dercy Gonçalves ganha nova análise histórica
Durante a pesquisa, a autora descobriu que, apesar da fama de irreverente, Dercy enfrentou violências patrimonial, psicológica e sexual. O caso mais chocante foi o estupro sofrido aos 73 anos, revelado em entrevista ao programa “Roda Viva” em 1987, quando parte da bancada reagiu com risos. A biógrafa destaca que, na época, o debate sobre violência sexual era praticamente inexistente.
Conhecida pela frase “Cada mulher manda na sua xereca”, a atriz desafiou padrões de gênero ao optar por não ser mãe e admitir oito abortos para priorizar a carreira. Desde a juventude, era chamada de “puta” por decidir subir ao palco; em resposta, dizia que seria “a maior puta do mundo” se isso significasse seguir seu sonho.
Negreiros aponta que a artista também era contraditória: criticava o feminismo, defendia recato na vida íntima e, ao mesmo tempo, exaltava a autonomia feminina. “Talvez seja justamente essa contradição que a torna tão humana”, explica a escritora em entrevista publicada pela revista Marie Claire.
Na esfera privada, Dercy era conservadora: proibia palavrões em casa, gostava de pratos simples, evitava leituras por ter pouca escolaridade e mantinha distância de demonstrações de erudição. Apesar do carisma no palco, enfrentou solidão nos relacionamentos amorosos e costumava afirmar que “só o público soube me amar”.
Para contextualizar a trajetória da humorista, Negreiros revisita períodos-chave do século XX, como a ascensão do rádio e o início da televisão no Brasil. A pesquisadora ressalta que Dercy foi uma testemunha ocular da evolução de toda a indústria do espetáculo. Uma análise do impacto cultural das vedetes no teatro de revista pode ser encontrada na reportagem da BBC Brasil, que reforça esse panorama histórico.
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“Dercy: A diva debochada” será lançado em maio de 2026 pela Editora Objetiva, com 304 páginas e preço sugerido de R$ 79,90. Cada capítulo traz títulos formados por frases da própria artista, estratégia usada para preservar o humor ácido que marcou sua trajetória.
Negreiros, também autora de “Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço”, afirma que a nova biografia pretende inspirar o público a reconhecer a coragem necessária para desafiar padrões sociais. “Para contrariar o seu tempo, é preciso aguentar pressão. Dercy aguentou e seguiu em frente”, resume.
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