Brasil é apontado como inseguro para mulheres que viajam sozinhas em novo relatório da Riskline, empresa dinamarquesa especializada em análise de risco em viagens. O documento destaca que 71% das viagens individuais no mundo já são feitas por mulheres e que, mesmo assim, a sensação de vulnerabilidade cresce: a ansiedade antes de viajar subiu de 64% para 70% em apenas um ano.
O estudo mapeou 29 países classificados como de “alta preocupação” para viajantes do sexo feminino. Nas Américas, aparecem Brasil, México, Haiti e Honduras. A lista inclui ainda na Ásia-Pacífico Afeganistão, Myanmar, Papua-Nova Guiné, Paquistão e Timor-Leste; na África Subsaariana Burundi, Congo-Brazzaville e República Democrática do Congo, entre outros; e no Oriente Médio e Norte da África Síria, Sudão e Iêmen.
Brasil é apontado como inseguro para mulheres que viajam sozinhas
Segundo a Riskline, os riscos no território brasileiro variam conforme a região, mas envolvem assédio sexual, agressão, intimidação verbal e diferenças legais que afetam diretamente o bem-estar das mulheres. Em contraste, destinos considerados mais seguros permanecem concentrados na Europa, além de Canadá, Japão, Nova Zelândia, Singapura, China, Coreia do Sul e Austrália.
Os dados internacionais confirmam a percepção interna. Pesquisa “Mulheres que Viajam Sozinhas”, elaborada pelo Ministério do Turismo em parceria com a Unesco e divulgada em março, revelou que seis em cada dez brasileiras já se sentiram inseguras em viagens sem companhia. O levantamento, conduzido em agosto de 2025 com 2.712 entrevistadas, também mostrou que 62% desistiram de algum roteiro por motivos de segurança.
A vulnerabilidade é ainda maior entre mulheres negras e indígenas: 65,35% das participantes que se autodeclararam pretas, pardas ou indígenas disseram ter cancelado viagens solo por receio de violência. Para Carolina Fávero, coordenadora-geral de Turismo Sustentável e Responsável do ministério, tornar o problema visível é o primeiro passo para desenvolver políticas públicas específicas.
Juliana Medaglia, professora do Programa de Pós-Graduação em Turismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), reforça a necessidade de ações governamentais: “O documento evidencia como políticas de gênero no turismo podem transformar essa realidade”.
As estatísticas aparecem refletidas em relatos pessoais. A paulista Renata Motta, de 47 anos, já visitou 91 países, muitos deles sozinha. Em viagem ao Egito, teve a porta do quarto de hotel forçada duas vezes e desde então leva uma tranca portátil na bagagem. “Ser mulher impacta cada decisão da viagem”, resume.
Números do Ministério do Turismo indicam que quatro em cada dez brasileiras já viajaram desacompanhadas. Entre as entrevistadas, quase 35% têm entre 35 e 44 anos e 22% entre 45 e 54 anos, faixas em que a estabilidade financeira e a autonomia pessoal costumam gerar mais oportunidades de viagem.
Imagem: pessoal
Diante desse cenário, o “Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas”, lançado pelo governo federal, lista recomendações práticas, como pesquisar costumes locais, evitar deslocamentos noturnos em áreas pouco movimentadas, hospedar-se em acomodações bem avaliadas, manter conexão estável de internet e salvar contatos de emergência. O reforço de medidas simples, como o uso de aliança para desencorajar abordagens e o porte de tranca extra para portas, também é sugerido.
A Riskline disponibiliza mais orientações sobre segurança de gênero em seu site oficial, referência reconhecida no setor de viagens (Riskline).
Especialistas concluem que criar redes de apoio entre viajantes e aumentar a oferta de informações qualificadas são caminhos imediatos para reduzir riscos. “Queremos que mais mulheres viajem, mas de forma segura e consciente”, diz Motta. Já para Medaglia, só a combinação de iniciativas públicas e privadas poderá mudar o status do Brasil nos próximos levantamentos internacionais.
Resumo: o relatório internacional e a pesquisa nacional convergem ao indicar que a segurança continua sendo o principal obstáculo para as brasileiras que desejam explorar o mundo sozinhas. Com dados, relatos e dicas, a reportagem evidencia a urgência de políticas e práticas que garantam viagens mais seguras.
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Crédito da imagem: Arquivo pessoal


