Câncer de colo do útero revela desigualdade regional grave. Dados recém-divulgados pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) indicam que a doença continua sendo a terceira neoplasia maligna mais frequente entre brasileiras, com projeção de 19.310 novos casos anuais entre 2026 e 2028.
Em 2023, o Atlas de Mortalidade por Câncer contabilizou 7.209 óbitos decorrentes do tumor, que é potencialmente erradicável por meio de vacinação contra o HPV e rastreamento eficiente. A incidência, porém, varia drasticamente de acordo com a região do País: no Norte e no Nordeste, o carcinoma ocupa a segunda posição no ranking de cânceres mais comuns, enquanto no Sudeste cai para a quinta.
Câncer de colo do útero revela desigualdade regional grave
O risco de morte de uma mulher residente na Região Norte chega a ser quase quatro vezes maior que o de uma moradora do Sudeste. O Brasil, que aderiu em 2018 à estratégia global da Organização Mundial da Saúde (OMS) para eliminar o câncer de colo uterino, ainda está distante da meta de menos de quatro casos por 100 mil mulheres: hoje são cerca de 17 por 100 mil.
Vacinação avança, mas cobertura segue irregular
Desde 2022, o Ministério da Saúde adota dose única da vacina contra o HPV. A média nacional de cobertura gira em torno de 83%, mas o cenário é desigual: Roraima se aproxima de 100%, enquanto o Acre está perto de 49%. A imunização de 90% das meninas até 15 anos é um dos três pilares da estratégia da OMS, que também inclui rastrear 70% das mulheres com testes de alta performance e tratar 90% das lesões identificadas.
Novo teste de DNA-HPV amplia sensibilidade
O Sistema Único de Saúde (SUS) incorporou, em 2024, o teste molecular de DNA-HPV, capaz de detectar os subtipos 16 e 18, responsáveis por 70% dos casos de câncer de colo do útero. O exame permite estender o intervalo de rastreamento para cinco anos quando negativo. Entretanto, a implantação é gradual e enfrenta gargalos que vão do processamento de amostras ao acesso rápido ao tratamento.
Desafios do rastreamento: cobertura baixa e diagnósticos tardios
Entre 2022 e 2024, apenas 31% das brasileiras realizaram o Papanicolau, com variação de 19% no Amapá a 50% no Espírito Santo. Mais da metade das pacientes chega aos serviços de saúde já nos estágios 3 ou 4 da doença, quando o tratamento é mais agressivo e as chances de cura diminuem.
Desinformação agrava cenário
Circula nas redes sociais o boato de que a autocoleta substitui o exame clínico com espéculo. Segundo especialistas do Inca, a autocoleta do teste de DNA-HPV é indicada apenas para grupos de difícil acesso e não dispensa o acompanhamento ginecológico. A Organização Mundial da Saúde esclarece, em sua página sobre câncer de colo do útero segundo a OMS, que a adesão a protocolos completos de prevenção é essencial para reduzir a mortalidade.
Imagem: Carlos Morocho para Pexels
Papel da equidade no enfrentamento da doença
A ginecologista Fernanda Torras reforça que a prevenção é capaz de garantir mais de 90% de cura quando feita de forma regular. Contudo, barreiras históricas de acesso aos serviços de saúde fazem com que muitas mulheres procurem atendimento apenas quando já apresentam sintomas, estágio em que a doença costuma ser silenciosa.
A soma de baixa cobertura vacinal em alguns estados, rastreamento insuficiente e diagnóstico tardio mantém o câncer de colo do útero como marcador da desigualdade brasileira. Especialistas defendem maior investimento em infraestrutura, campanhas educativas e integração dos serviços de atenção primária para romper o ciclo de vulnerabilidade.
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Crédito da imagem: Inca/Divulgação


