Congelar óvulos é seguro para a maioria das mulheres, mas duas mortes recentes reacenderam o debate sobre os riscos do procedimento de preservação da fertilidade.
A juíza Mariana Francisco Ferreira, 34, morreu em 6 de março após a coleta de óvulos em Mogi das Cruzes (SP). Em fevereiro, a terapeuta Gabriele Martins, 31, faleceu em situação semelhante na capital paulista. Ambos os casos são investigados pela Polícia Civil.
Congelar óvulos é seguro? Entenda riscos e estatísticas
O congelamento de óvulos, indicado originalmente a pacientes que passariam por quimioterapia, tornou-se opção para quem deseja adiar a maternidade sem comprometer a qualidade genética. O processo envolve três etapas principais: estimulação hormonal, punção ovariana transvaginal e vitrificação em nitrogênio líquido.
Como funciona a estimulação hormonal
Por cerca de dez dias, a paciente aplica injeções diárias de hormônios para induzir a produção de múltiplos óvulos. Ultrassons a cada três dias monitoram o crescimento dos folículos. Quando esses folículos amadurecem, inicia-se a fase cirúrgica.
Complicações na fase de hormônios
A principal preocupação inicial é a síndrome de hiperestimulação ovariana (SHO). O quadro, classificado como incomum pela Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, ocorre quando os ovários aumentam demasiadamente de volume, podendo provocar acúmulo de líquido no abdome e sobrecarga renal. Protocolos atuais introduzem uma medicação que age em 12 a 36 horas quando o ultrassom detecta mais de 15 a 20 folículos, reduzindo a probabilidade de SHO grave, explica Eduardo Motta, fundador do Grupo Huntington.
Outra possibilidade é a torção do ovário. “Em cerca de dez dias o órgão pode inflar do tamanho de um morango para o de uma manga”, compara o ginecologista Geraldo Caldeira, membro da SBRA e da Febrasgo. O peso extra permite que o ovário gire sobre seu próprio eixo, bloqueando o fluxo sanguíneo. O tratamento é cirúrgico e, se realizado rapidamente, costuma preservar o órgão.
Riscos durante a punção ovariana
A pelve é altamente vascularizada e, durante a coleta, a agulha pode atingir pequenos vasos, gerando sangramento. Pequenas perdas de sangue no pós-operatório são consideradas comuns, mas existe a chance de formação de um cisto hemorrágico que se rompa horas depois, causando hemoperitônio — acúmulo de sangue na cavidade abdominal. Nesses casos, pode ser necessária laparoscopia para cauterizar o ponto de sangramento.
Outras intercorrências possíveis
Entre os riscos listados pela Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) estão tromboembolismo, infecções e complicações anestésicas, incluindo reações alérgicas ao sedativo. Cinco entidades médicas brasileiras divulgaram nota conjunta após o falecimento de Gabriele Martins informando que a mortalidade em tratamentos de fertilização in vitro não passa de 1 caso em 100 mil ciclos.
Imagem: Edward Jenner para Pexels
Probabilidade e segurança atual
Com a evolução dos medicamentos e da monitorização, especialistas classificam o congelamento de óvulos como procedimento de baixa complexidade. “Casos graves tornaram-se raros”, afirma Motta. Caldeira reforça que, apesar do impacto dos episódios recentes, o risco permanece mínimo nos centros especializados.
No entanto, médicos recomendam que a paciente escolha clínicas habilitadas, siga rigorosamente as orientações de dosagem hormonal e relate qualquer dor intensa ou inchaço fora do padrão. O acompanhamento adequado aumenta significativamente a segurança.
Em resumo, o congelamento de óvulos apresenta riscos baixos, mas não inexistentes. Informar-se, avaliar o histórico de saúde e buscar equipes experientes são passos decisivos para manter o procedimento dentro dos índices de segurança apontados na literatura médica.
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Crédito da imagem: Divulgação


