Crise na Venezuela: vozes femininas detalham impasse

Crise na Venezuela: vozes femininas detalham impasse marca o testemunho de quatro mulheres que, de Caracas, Barcelona e São Paulo, descrevem como a captura de Nicolás Maduro e a nomeação da vice-presidente Delcy Rodríguez pelo governo dos Estados Unidos afetaram suas rotinas, expectativas e temores.

A ofensiva norte-americana ocorreu na madrugada de 3 de janeiro, quando Maduro e a primeira-dama Cilia Flores foram detidos. Sem consulta popular, Donald Trump indicou Delcy Rodríguez como presidente interina, afirmando que ela “fará tudo o que os EUA pedirem”. De outro lado, a líder da oposição, María Corina Machado – impedida de disputar as eleições de 2024 – recebeu o Nobel da Paz de 2025 por seu papel na luta democrática e tenta convencer Washington a reconhecer Edmundo González Urrutia, hoje exilado na Espanha.

Crise na Venezuela: vozes femininas detalham impasse

L.D., 62 anos, escritora que divide a vida entre Espanha e Venezuela, resume o sentimento de diáspora: “O regime roubou o direito de compartilhar minha vida com a família”. Ela vê na intervenção uma saída paradoxal: “Trump é um perigo para a paz mundial, mas, graças a ele, finalmente avistamos luz no fim do túnel”. Mesmo assim, teme que o país permaneça preso entre chavistas armados e opositores sem força militar.

Para L.D., a sociedade é um matriarcado: “Não conheci nenhuma mulher tola na Venezuela. Somos corajosas, criamos os filhos conscientes e não abrimos mão de nos expressar”. A escritora descreve uma rotina de “resistência persistente”, alternada com pequenos prazeres – “compramos sandálias novas, tomamos cerveja” – como estratégia de sobrevivência após 27 anos de crise ininterrupta.

S.G.S., 35 anos, migrou há 12 anos e vive em São Paulo. Ela recorda que 8,6 milhões de venezuelanos deixaram o país, 626,9 mil rumo ao Brasil. “Para vocês, é direito internacional; para nós, é a vida das nossas famílias”, diz, lembrando que a discussão sobre intervenção perde sentido quando comparada ao custo humano do êxodo. O depoimento desloca o debate da ideologia para a sobrevivência cotidiana.

L.C., 52 anos, professora em Caracas, estava na cama quando ouviu os estrondos da operação militar e pensou serem fogos de artifício. “Delcy assumir é bizarro”, admite. Ela teme abrir mão da soberania, mas reconhece que, se a intervenção trouxer qualidade de vida, parte da população a aceitará. “Há uma tensão calma; não sabemos o que tramam. Estou aprendendo a viver com essa realidade”, desabafa, enquanto tenta manter a sanidade fazendo faxina, cozinhando em família e assistindo a séries.

V.M., 45 anos, jornalista radicada em Barcelona, votou em Hugo Chávez em 1998, mas hoje quer ver a cúpula chavista julgada “em território nacional, não por acusações de outro país”. Ela reconhece a coragem de María Corina Machado, mas avalia que Delcy Rodríguez, “mais astuta do que parece”, é a peça que sustenta a calma dentro do chavismo. V.M. teme que o viés de gênero coloque ambas sob escrutínio desproporcional: “Serão julgadas com mais severidade, suas conquistas ignoradas”.

A crise expõe dilemas simultâneos: independência versus melhora imediata de condições de vida, justiça doméstica versus tribunais estrangeiros e, sobretudo, o peso de duas lideranças femininas em campos antagônicos. Segundo a Agência da ONU para Refugiados, a diáspora venezuelana já é a maior da história recente da América Latina, sinal de que qualquer decisão política terá reflexo direto sobre milhões fora do país.

Enquanto Trump pressiona por auxiliares “confiáveis” e María Corina busca legitimidade internacional para Urrutia, mulheres comuns sustentam famílias em um cenário de polarização total. A intuição, apontada por L.D. como “a forma de inteligência mais valorizada nestes tempos de manipulação”, torna-se ferramenta essencial para navegar entre medo, esperança e exaustão.

O futuro imediato depende do encontro – ou do choque – entre Delcy Rodríguez, braço de ferro do chavismo, e María Corina Machado, símbolo da oposição laureado com o Nobel. Até lá, a nação permanece “suspensa”, como define V.M., entre a promessa de reconstrução e o receio de perder o pouco de autonomia que ainda resta.

Quer entender como outros temas impactam o seu dia a dia? Acesse nosso conteúdo de Beleza e Estilo e continue acompanhando análises que fazem diferença na sua rotina.

Foto: Reprodução/ Instagram

Quando você efetua suas compras por meio dos links disponíveis em nosso site podemos receber uma comissão de afiliado, sem que isso acarrete nenhum custo adicional para você.
Rolar para cima