Daniela Mercury inicia a temporada de folia celebrando 40 anos de carreira e proclamando uma liberdade que, segundo ela, a tornou “mais perigosa” no melhor sentido da palavra.
Aos 60 anos, a rainha do axé sincroniza compromissos para encarar seis dias consecutivos de trio elétrico em Salvador. Entre ensaios e estudos de neurociência, a artista baiana garante estar “inteiraça, sem dores, louca para pular Carnaval” e aposta no single “É Terreiro”, homenagem à entidade Maria Padilha.
Daniela Mercury revela nova fase antes do Carnaval
A inquietude que marcou a trajetória de Mercury permanece viva. Desde adolescente, ela adotou um processo “antropofágico” de absorver referências, lendo de Camille Paglia a Djamila Ribeiro e bebendo na cultura das ruas de Salvador. “Sempre gostei de fazer diferente; para isso é preciso inventar”, resume a cantora.
O novo momento se reflete na busca pelo autoconhecimento. Estudando neurociência, Daniela diz conduzir a mente para organizar a vida. “Não faz diferença responder quem sou; prefiro lançar questões”, explica, reiterando que o papel do artista é provocar transformação, seja pela beleza, seja pela dúvida.
A valorização de símbolos populares marca “É Terreiro”. Na canção, Maria Padilha surge como exu feminina associada à liberdade e ao desejo. “Os símbolos são muito importantes; ela tem ligação forte com as ruas”, afirma a cantora, que vê na figura uma ponte entre misticismo e empoderamento.
Mercury lembra que a consciência feminista começou aos 17 anos. Na época, questionava a autonomia masculina e buscava o mesmo direito ao prazer. Embora tenha seguido o roteiro social — casou-se aos 19 e virou mãe de dois filhos —, a cantora manteve o olhar crítico. “Minha família era católica, mas eu sempre fui muito altiva”, recorda.
O ambiente doméstico, liderado pela assistente social e acadêmica Liliana Mercuri, funcionava como ponto de acolhimento na capital baiana. “Aprendi cedo a me comprometer com quem precisa; nossa felicidade depende disso”, pontua.
Fora dos palcos, a artista se define introspectiva. Seu “signo chinês, serpente de madeira”, contrasta com a explosão leonina do palco. Essa dualidade, segundo ela, é administrada com disciplina, escrita e estudo. “Ser artista exige coragem e doação; no palco, você é quase uma sacerdotisa”, diz.
Imagem: Celia Santos
A vida pessoal ganhou novo capítulo em 2013, quando se casou com a jornalista Malu Verçosa. “Desde então me tornei mais livre, mais autônoma”, conta. O relacionamento exigiu tempo para que ambas se deixassem cuidar. Hoje, Verçosa também produz e coordena a agenda da cantora, que retribui com o que considera mais valioso: tempo. “Brinco que não podemos nos separar, porque não tenho mais vida para desfazer isso aqui”, confidencia Mercury.
Para além da música, a artista acredita que o Carnaval é espaço de manifestação política e social. Segundo Daniela, a ocupação das ruas reforça a responsabilidade de quem conduz o cortejo. Em entrevista anterior à BBC, ela já havia destacado o papel do axé na construção da identidade brasileira.
A maratona de 2024 será também um teste de resistência física. Ainda assim, Mercury não cogita reduzir o ritmo: “Sou uma mulher pós-menopausa que faz mais do que imaginava. Quero viver tudo intensamente”.
Entregue às próprias revoluções, Daniela Mercury chega ao Carnaval decidida a reafirmar a ousadia que a manteve relevante por quatro décadas — e que, agora, ela chama de perigo bom.
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Foto: Celia Santos


