Dendezeiro no SPFW encerrou o projeto Brasiliano com uma coleção que resgata a Lei da Vadiagem e a estética dos bailes black dos anos 1970, celebrando cultura e resistência.
A grife baiana, comandada pelos estilistas Hisan Silva e Pedro Batalha, apresentou o terceiro ato do Brasiliano durante a 60ª edição do São Paulo Fashion Week, marcando os 30 anos do evento com alfaiataria ousada, couro de pirarucu e parcerias inéditas.
Dendezeiro no SPFW revive Lei da Vadiagem e bailes black
Baseada na Lei da Vadiagem, contravenção promulgada em 1941 no Estado Novo de Getúlio Vargas, a coleção reflete sobre como a norma serviu para vigiar a população negra recém-liberta. Ao mesmo tempo, homenageia Gerson King Combo, pioneiro do soul e do funk, remetendo aos lendários bailes blacks dos anos 70 e 80, onde a moda era escudo e identidade.
O DNA monocromático em tons de marrom surge ao lado de xadrez tartan, listras e novas texturas. Pela primeira vez, a marca usa couro de pirarucu em microshorts, além de lã e uma paleta que inclui preto, cinza, branco e caramelo. “Fomos além da nossa identidade para construir uma moda voltada ao futuro”, afirma Pedro Batalha.
Três colaborações destacam a fase madura da Dendezeiro. A Magnum inspirou bolsas em formato de picolé e o único look com saia volumosa que lembra cobertura de chocolate. A DOD Alfaiataria, de Jubba Sam, assina três conjuntos que unem modelagem streetwear à alfaiataria preta brasileira. Nos pés, surgem pares Jordan e Kenner; nos acessórios, óculos retrô desenvolvidos com a Zerezes e bolsas artesanais do Ateliê Masanga.
A coleção também dialoga com o direito à cultura. Conforme a professora Manuela Abath, da Universidade Federal de Pernambuco, a Lei da Vadiagem foi instrumento de controle que “mostrava à população negra que ela estava sempre vigiada”. Dendezeiro contrapõe esse passado com um desfile que exalta liberdade, dança e sofisticação.
Marrom dominante, boinas amplas e maxibolsas reforçam referências setentistas. Fãs como Gaby Amarantos, Sabrina Sato e Liniker prestigiaram a passarela, que contou ainda com participação de MC Cabelinho, ampliando o frisson dentro e fora do evento.
Imagem: Divulgação
Para Silva e Batalha, moda é linguagem: “Conectamos nossa visão a marcas que compartilham valores e contam histórias impactantes”, resume Hisan. O resultado é um vitrô moderno que une crítica social, memória e celebração.
Com Brasiliano 3, a Dendezeiro encerra um ciclo iniciado em 2022, quando revisitou o regime Vargas, passando pela Revolta da Cabanagem até chegar ao debate sobre ociosidade criminalizada. A marca reafirma que vestir-se pode ser ato político e, sobretudo, prazeroso.
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Foto: Divulgação/ Danilo Grimaldi @agfotosite


