Endometriose: longa jornada até diagnóstico no Brasil

Endometriose ainda é subdiagnosticada no Brasil, como mostra a trajetória da psicóloga paulistana Izaianni Risco, 32 anos. Desde a menarca, aos 13, ela conviveu com cólicas intensas e hemorragias que se estenderam por oito meses contínuos antes de receber atenção adequada.

Ao longo de 14 anos, Risco buscou ajuda de mais de 20 médicos, entre atendimento público e privado. Mesmo relatando dores constantes, sangramento volumoso, dificuldade para permanecer em pé e dor durante relações sexuais, ouviu repetidamente que “cólica é normal”.

Endometriose: longa jornada até diagnóstico no Brasil

O cenário vivido por Izaianni reflete a realidade de muitas brasileiras. Levantamento do instituto Ipsos, encomendado pela farmacêutica Bayer em 2025, entrevistou 800 mulheres de 18 a 60 anos já diagnosticadas com a doença e revelou que 77 % tiveram seus sintomas minimizados ou ignorados por profissionais de saúde; 32 % apontaram o ginecologista como principal fonte dessa invalidação. Em média, o diagnóstico chega apenas 3,8 anos após os primeiros sinais.

A endometriose é uma inflamação crônica caracterizada pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio fora do útero, podendo atingir ovários, trompas, intestino, bexiga e, em casos raros, o pulmão. Afeta cerca de 10 % das mulheres em idade reprodutiva no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Apesar disso, quatro em cada dez brasileiras desconhecem detalhes sobre a condição.

Em 2020, após oito meses de sangramento ininterrupto, Izaianni contratou um plano de saúde e finalmente recebeu laudo de endometriose, além de doença de Crohn. Diversos anticoncepcionais foram testados sem sucesso; para conter a dor, ela dependeu de codeína, analgésico opioide.

No ano seguinte, a primeira cirurgia teve foco na remoção de um cisto na tuba uterina. A paciente solicitou prioridade no controle da dor, mas o especialista insistiu em preservar a fertilidade. Depois do procedimento, o médico relatou nervos retraídos, fibroses e útero deformado, frisando que os “poucos” focos não justificariam o quadro doloroso. Um DIU hormonal foi instalado, porém as crises se intensificaram apenas dez dias depois.

Ignorada pelo cirurgião, ela peregrinou por consultórios durante dois anos. Recebeu indicação para especialista em dor, prescrição de acetato de gosserrelina — que induziu menopausa química por seis meses — e tratamento psiquiátrico devido à depressão profunda que se instalou.

Só em 2023 foram solicitados exames de imagem com preparo intestinal, conforme protocolo atual para avaliação da pelve. Os laudos apontaram que as lesões anteriormente descritas permaneciam ativas. Em 2024, chegou a segunda intervenção: remoção de fibroses que comprimiam o nervo da perna esquerda, das lesões do peritônio, do útero, das trompas e do apêndice, todos comprometidos. “Acordei da anestesia sem nenhuma dor”, comemora.

Para o coloproctologista Alexandre Nishimura, dedicado às doenças da pelve, o atraso se deve à dependência excessiva de laudos: “Em todo o mundo, o tempo médio para diagnóstico beira dez anos. Muitos profissionais priorizam exames em vez de ouvir a paciente”.

A história de Izaianni reforça a urgência de escuta qualificada e protocolos precoces. Ela transformou a própria experiência em missão: “Quero que outras mulheres não passem pelo que passei”.

A demora no reconhecimento da doença, a banalização da dor feminina e a falta de informação reforçam a necessidade de campanhas educativas, formação continuada de profissionais e ampliação do acesso a exames adequados.

No Brasil, diferentes sociedades médicas recomendam que mulheres com cólicas incapacitantes, sangramento intenso ou dor na relação procurem avaliação especializada. O tratamento pode incluir contraceptivos hormonais, analgésicos, bloqueadores hormonais e cirurgia, dependendo da extensão das lesões e do desejo reprodutivo.

Sintomas mais comuns da endometriose

  • Cólica severa que prejudica atividades diárias;
  • Sangramento menstrual intenso ou prolongado;
  • Dor durante a relação sexual;
  • Dores pélvicas crônicas, lombares ou abdominais;
  • Dificuldade para engravidar.

Frente a qualquer sinal persistente, a recomendação é insistir em avaliação e, se necessário, buscar segunda opinião. Quanto mais cedo a doença for identificada, menores são as chances de complicações como infertilidade, lesão de nervos e comprometimento de órgãos.

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Foto: Arquivo pessoal

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