Expectativas de gênero afetam emoções dos meninos desde os primeiros anos de vida, impondo a ideia de que “homem não chora”. Esse padrão social, ainda dominante, inibe o autoconhecimento emocional e agrava o sofrimento psicológico de muitos adolescentes.
A máxima cultural que proíbe lágrimas masculinas torna-se um fardo silencioso. Ao reprimir sentimentos, garotos desenvolvem insegurança, culpa e dificuldades de comunicação, como mostra a trajetória de um estudante taiwanês acompanhado por assistentes sociais.
Expectativas de gênero afetam emoções dos meninos, revela estudo
Ah-Chen, 17 anos, vive em um lar financeiramente estável, estuda em escola preparatória para a universidade e tem a rotina regulada pelos pais. Apesar da aparência “perfeita”, o jovem acumula pressão acadêmica, críticas constantes e ausência de espaço para expressar fraquezas.
Em conversas com o serviço social, o adolescente confessou sentir “vontade de chorar, mas não posso, porque sou menino”. A sensação de ridículo o impede de reagir a piadas de colegas ou de relatar ansiedade em casa. O resultado é um hábito automático de pedir desculpas, acompanhado de raiva contida que, por vezes, se traduz em vontade de gritar ou quebrar objetos.
O dilema ganha força quando o futuro entra em pauta. Toda a trajetória universitária de Ah-Chen já foi decidida pela família. Questionado sobre preferências pessoais, ele respondeu em voz baixa: “Não sei. Acredito que terei sucesso se seguir o plano dos meus pais. Meninos devem se sustentar e não decepcioná-los”.
A assistente social responsável observou que a rigidez desses papéis de gênero impede o jovem de distinguir entre “gostar” ou “não gostar”. Ao longo de um ano, o acompanhamento focou no reconhecimento de emoções e na legitimação da vulnerabilidade como sinal de coragem. Progressivamente, Ah-Chen passou a recusar conversas que o desconfortavam e a admitir tristeza, rompendo o ciclo de desculpas automáticas.
Iniciativas institucionais também despontam. Em 2024, o Ministério da Educação de Taiwan implantou um projeto-piloto que concede três dias de “licença para ajuste mental e físico” por semestre em algumas escolas de ensino médio, permitindo que os adolescentes cuidem da saúde emocional.
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A relevância do tema é global. Relatório da UNICEF destaca que a pressão para corresponder a estereótipos afeta diretamente a saúde mental de meninos e meninas, reforçando a necessidade de diálogo aberto e políticas de apoio.
Especialistas defendem que perguntas simples, como “você está bem?”, substituam o tradicional “aguente firme”. Essa mudança de abordagem cria oportunidades para que garotos expressem medo, cansaço ou dor sem receio de parecer frágeis.
Ao lembrar as palavras do aluno — “Todo garoto precisa de um assistente social para poder falar a verdade sem fingir coragem” —, a equipe reforça o apelo por uma sociedade que flexibilize estereótipos e permita que meninos trilhem seus próprios caminhos, livres do papel de “machões” insensíveis.
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Imagem: Reprodução/Marie Claire Taiwan


