Feminicídio na polícia voltou ao centro do debate após a morte da soldada Gisele Alves, em São Paulo, e da comandante Dayse Barbosa, em Vitória. Os dois casos, ocorridos em 2024, escancaram obstáculos que vítimas enfrentam quando o agressor também pertence às forças de segurança.
Gisele foi encontrada com um tiro na cabeça dentro de seu apartamento. O marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, alegou suicídio, mas acabou investigado como principal suspeito. Em Vitória, Dayse foi morta a tiros pelo ex-namorado, o policial rodoviário federal Diego Oliveira de Souza, que se suicidou após o crime.
Feminicídio na polícia expõe barreiras na Justiça brasileira
No caso de Gisele, a patente elevada do suspeito influenciou a preservação da cena e a condução da ocorrência. Rosa Neto tomou banho antes da perícia – procedimento incomum porque pode eliminar vestígios. Ele ainda recebeu, no local, o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo, o que, segundo especialistas, amplia a sensação de proteção corporativa.
As imagens das câmeras corporais dos policiais que atenderam o chamado, obtidas pelo jornalista Josmar Jozino, mostram agentes intimidados pela hierarquia. A advogada Maíra Recchia, presidente da Comissão das Mulheres Advogadas da OAB-SP, afirma que “estruturas institucionais distorcem a investigação quando o agressor pertence à mesma corporação”.
Dayse enfrentava contexto semelhante. Antes de ser assassinada, denunciara ameaças e perseguição. Para Carolina Ricardo, diretora executiva do Instituto Sou da Paz, o medo de retaliação inibe denúncias: “Quando o autor é policial, há tentativa de amenizar o ocorrido e dificultar o acesso da vítima aos trâmites”.
Outro fator de risco é o acesso irrestrito a armas. Pesquisa “Pela Vida das Mulheres: o Papel da Arma de Fogo na Violência de Gênero”, do Instituto Sou da Paz, indica que metade dos homicídios de mulheres em 2024 foi cometida com armas de fogo. A arma também aparece em violência sexual, psicológica e financeira, ampliando o poder de coerção do agressor fardado.
Levantamento do Portal Catarinas revelou aumento de 366,6% nos casos de violência contra mulheres cometidos por policiais militares em Santa Catarina entre 2019 e 2024. Especialistas acreditam que o número real é maior, já que famílias e testemunhas temem represálias e, muitas vezes, deixam de registrar ocorrência.
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As mensagens entre Gisele e Rosa Neto mostraram influência de discursos da “machosfera”. Em um dos textos, o tenente-coronel se autodenominou “macho alfa” e descreveu a esposa como “fêmea beta obediente e submissa”. Relatório do NetLab-UFRJ, em parceria com o Ministério das Mulheres, aponta que termos como “alfa” dominam espaços da comunidade red pill, que prega a submissão feminina e critica homens considerados “beta”.
Para Maíra Recchia, armar mulheres não garante proteção e transfere às vítimas responsabilidade que cabe ao Estado. Já Carolina Ricardo defende que discussões de gênero sejam incorporadas à formação policial, ainda majoritariamente masculina, para romper o ciclo de violência e corporativismo.
Os casos de Gisele Alves e Dayse Barbosa evidenciam a necessidade de reformas estruturais que garantam investigação imparcial, proteção às vítimas e responsabilização efetiva de agressores dentro das corporações.
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