Francesa aprende português ouvindo funk e vira fenômeno web: aos 22 anos, a parisiense Youlia Tshasa transformou o hábito de escutar MCs brasileiros em caminho para a fluência no idioma e para a fama nas redes sociais.
Nascida e criada na periferia de Paris, na comuna de Noisy-Le-Grand, a jovem descobriu o funk aos dez anos, quando tropeçou sem querer em uma música de MC Pedrinho. Desde então, o ritmo das quebradas paulistas passou a ser trilha sonora diária, pontuada pelo sucesso “Bum Bum Tam Tam”, de MC Fioti, que marcou 2017 e consolidou seu interesse pelo gênero.
Francesa aprende português ouvindo funk e vira fenômeno web
Sem recorrer a cursos formais, Youlia montou um método próprio: anotava gírias desconhecidas, buscava significados online e repetia as letras até fixar a pronúncia. O caderno usado para conjugar verbos durante a pandemia logo sumiu, mas a determinação permaneceu. “Nunca fui de estudar na frente dos livros; foi a vontade que me fez aprender”, explica.
Hoje, a jovem conversa com desenvoltura, acumula quase 193 mil seguidores no Instagram e no TikTok — maioria absoluta de brasileiros — e cita artistas como MC Hariel, as irmãs Tasha & Tracie, AJULIACOSTA e Nanda Tsunami entre suas referências. A morte de MC Kevin, em 2021, chegou a fazê-la chorar, prova da ligação emocional construída à distância.
O carinho recebido on-line foi determinante para que ela visitasse o Brasil. Em viagem recente, passou por Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Ceará e Piauí. “Foi tudo e muito mais”, resume, descrevendo a hospitalidade brasileira como contraste à frieza que percebe no primeiro contato com franceses.
De volta a Paris, onde trabalha como vendedora, Youlia admite ter poucas ambições locais. O plano de vida é atravessar o Atlântico de vez: “Não me vejo morando para sempre na França e não tenho vontade de ficar em outro lugar que não seja o Brasil”. Na bagagem emocional, carrega a certeza de que o país “tem pequenos mundos dentro de um só” e oferece aprendizado diário.
Especialistas em linguística apontam que o contato intensivo com música é estratégia eficaz para adquirir vocabulário e entonação. A experiência de Youlia, segundo reportagem da revista Marie Claire, reforça a ideia de que motivação e contexto cultural podem substituir metodologias tradicionais.
A francesa também destaca o impacto do funk como ponte sociocultural. Para ela, o gênero traduz realidades das periferias brasileiras e apresenta códigos que vão além das pistas de dança. “Meu fanatismo era, antes de tudo, vontade de entender o que os cantores diziam”, afirma.
Imagem: Reprodução
Com a crescente audiência, a criadora de conteúdo produz vídeos sobre seu cotidiano e troca de culturas, sempre em português. Celebridades do funk que curtiram ou comentaram suas publicações serviram de combustível extra. “Foi a realização de um sonho me sentir ouvida por quem admiro desde a adolescência”, conta.
Enquanto não oficializa a mudança, Youlia mantém a rotina dupla: durante o dia, trabalho no comércio francês; à noite, lives e gravações para os seguidores brasileiros. O próximo passo deve ser intensificar a produção de conteúdo educativo, unindo dicas de francês e curiosidades do funk.
Em tempos de globalização digital, a trajetória da jovem mostra como a música derruba barreiras linguísticas e cria novas oportunidades profissionais. De fã mirim a influenciadora bilíngue, ela virou personagem de uma história que comprova: paixão é método.
Quer saber mais histórias inspiradoras que misturam cultura e transformação? Visite nossa seção de Beleza e Estilo e continue acompanhando nossas reportagens exclusivas.
Crédito da imagem: Foto: Reprodução/Instagram


