Grupos antiaborto usam medo para influenciar mulheres

Grupos antiaborto no Brasil recorrem a estratégias baseadas no medo e na desinformação para dissuadir mulheres de interromper a gravidez, revelam as jornalistas Angela Boldrini e Carolina Moraes em “Coreografia da escolha: a disputa pelo aborto no Brasil” (Fósforo). A obra amplia a investigação iniciada em 2023, quando a dupla lançou o podcast “O caso das 10 mil”, série narrativa da Folha de S.Paulo sobre o maior processo criminal de aborto do país.

O livro reconstrói duas décadas de atendimentos clandestinos na Clínica de Planejamento Familiar de Campo Grande (MS), responsável por mais de 10 mil procedimentos e 1.000 ações judiciais. A partir de documentos oficiais, entrevistas com médicos, sociólogos e conselheiros tutelares, as autoras mostram como a questão permanece à margem do debate público, alimentada por preconceito, lacunas informativas e interesses políticos.

Grupos antiaborto usam medo para influenciar mulheres, diz livro

Durante a apuração, Boldrini participou anonimamente de um curso de formação antiaborto em Belo Horizonte. Ali, encontrou orientações para rastrear mulheres nas redes sociais e usar argumentos emocionalmente carregados, como a ideia de que a gestante “pode estar abortando o filho que vai sustentá-la no futuro”. A tática principal consistia em criar um “clima de terror” antes de oferecer apoio, deslocando a decisão do âmbito da saúde para o do pânico moral.

Segundo a Pesquisa Nacional do Aborto (2021), uma em cada sete brasileiras de até 40 anos já realizou o procedimento. Mesmo assim, muitos profissionais de saúde desconhecem protocolos legais, limitados a casos de violência sexual, risco à vida da gestante ou anencefalia fetal. A falta de clareza sobre esses direitos legais abre espaço para que grupos contrários ao aborto ampliem sua influência.

Moraes lembra que, historicamente, as mulheres recorreram a eufemismos — “fazer descer” era um dos mais comuns — para evitar o estigma. A ausência de um vocabulário que trate o aborto como questão de saúde pública dificulta sua consolidação como direito coletivo. “Há uma visão de que o aborto é problema privado, não pauta pública”, afirma Boldrini.

A religiosidade costuma ser apontada como principal barreira à ampliação de direitos reprodutivos, mas as autoras observam que países igualmente cristãos, como a Argentina, avançaram na chamada “maré verde”. Fatores políticos e eleitorais, destacam, têm peso significativo na manutenção do tema como tabu.

Organizações internacionais de saúde, como a Organização Mundial da Saúde, defendem que o acesso a informações claras e serviços seguros reduz mortes maternas. No Brasil, entretanto, a criminalização empurra o procedimento para a clandestinidade, mantendo as mulheres em risco e expondo-as a processos judiciais.

Para Boldrini e Moraes, romper esse ciclo passa por ampliar o debate público, treinar profissionais de saúde e garantir informação acessível. “O aborto sempre aconteceu e continuará a acontecer. A decisão é sobre como a sociedade quer lidar com isso”, conclui Moraes.

No fim, “Coreografia da escolha” sugere que somente políticas baseadas em evidências e a adoção de uma linguagem menos punitiva podem reduzir os danos já presentes na vida de milhares de brasileiras.

Foto: Divulgação

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