Independência financeira liberta mulheres de abuso doméstico

Independência financeira é ponto decisivo para que mulheres consigam romper ciclos de violência doméstica, apontam especialistas e relatos de sobreviventes.

O caso da servidora pública Romilda Estácio, 55 anos, moradora do Rio de Janeiro, ilustra como o controle do dinheiro costuma ser usado para manter a vítima presa a um parceiro agressor.

Independência financeira liberta mulheres de abuso doméstico

Romilda começou a namorar na adolescência e permaneceu casada por cerca de 30 anos. “Ele era possessivo; dizia que eu não precisava trabalhar”, recorda. Após o nascimento do primeiro filho, ela abandonou o emprego, decisão que considera “a pior burrada” da vida. A situação se agravou quando vieram os gêmeos: sem renda própria, tornou-se totalmente dependente do marido, que passou a agredir verbalmente tanto ela quanto os filhos.

A dimensão do abuso só ficou clara quando a filha, então com 17 anos, alertou a mãe de que a família vivia um relacionamento tóxico. A paralisia de Romilda era reforçada por preceitos religiosos que pregavam a submissão feminina. “Achava que precisava manter o casamento para dar exemplo”, conta.

A virada começou aos 37 anos, quando a fluminense foi aprovada em concurso público. Mesmo empregada, não tinha autonomia: o marido pegava empréstimos em seu nome e administrava seus salários. A ruptura só ocorreu em 2019, após ela abrir uma conta bancária separada e poupar discretamente. “Quando consegui guardar dinheiro, vi que podia sair. Tinha onde morar e meus filhos me apoiavam”, lembra.

Para a pesquisadora Thaise Xavier, fundadora do projeto Elas Trabalham, a história demonstra que “ter renda não basta: é preciso aprender a gerir o próprio recurso”. Muitas mulheres que querem deixar o agressor nunca lidaram de fato com seu orçamento, mesmo que trabalhem fora.

Thaise sugere três passos básicos: identificar qualquer fonte de renda — mesmo informal, como venda de artesanato ou prestação de serviços —, valorizar essa atividade como trabalho legítimo e, por fim, enfrentar o controle dentro de casa, assumindo as finanças. “Existe um duplo movimento: desafiar o agressor e construir autonomia prática. Nada disso é simples”, ressalta.

A terapeuta Bárbara Costa, que coordena o Grupo Sementes de Girassol, reforça que quase 80% das mulheres atendidas relatam dependência financeira como principal barreira para a separação. Segundo ela, muitas confundem manipulação com amor e normalizam acessos de raiva dos parceiros. “Separar dor de afeto é um dos maiores desafios”, diz.

Dados da pesquisa “Mulheres e Mercado de Trabalho 2026”, realizada pela Consultoria Maya em parceria com a empresa Koru, mostram que 37,3% das entrevistadas apontam a autonomia financeira como maior desejo; saúde mental vem depois, com 31,1%. A realização amorosa aparece em último lugar, com 7,9%, sinalizando uma mudança na percepção do papel do casamento. Para Thaise, os números indicam “rachadura no ideal do amor romântico”: o sustento próprio ganha prioridade sobre a vida a dois.

A legislação também pesa a favor. A Lei Maria da Penha ampliou a compreensão de violência doméstica ao incluir agressões psicológicas, patrimoniais e morais, facilitando pedidos de medida protetiva. Organismos internacionais, como a ONU Mulheres, recomendam políticas públicas que combinem geração de renda e apoio psicossocial para vítimas.

Enquanto políticas estruturais avançam, histórias como a de Romilda mostram caminhos individuais possíveis. Após a separação, ela mantém as contas em dia, cursa pós-graduação e participa de roda de apoio para incentivar outras mulheres. “Hoje sei o valor de cada centavo que ganho”, afirma.

No Brasil, ligar 180 é a orientação de emergência para vítimas. Além disso, delegacias especializadas, centros de referência e organizações não governamentais oferecem acolhimento jurídico, psicológico e, em alguns casos, auxílio financeiro temporário.

Romilda resume a jornada: “A violência nos deixa sem voz. Recuperar o controle do meu salário foi recuperar a minha vida”. O relato reforça que autonomia econômica não é luxo, mas ferramenta de sobrevivência.

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Crédito da imagem: Marie Claire

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