Jacqueline Muniz, antropóloga e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), passou a viver sob escolta do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos depois de receber ameaças virtuais e presenciais desencadeadas por declarações sobre a Operação Contenção, realizada em 28 de outubro nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro.
As intimidações começaram nas redes sociais, onde trechos de 15 segundos de suas falas foram divulgados sem contexto por parlamentares — entre eles Nikolas Ferreira (PL-MG), Delegado Palumbo (MDB-SP) e Sóstenes Cavalcante (PL-RJ). A pesquisadora havia argumentado que a logística policial supera a de criminosos armados, afirmando que até uma pedra poderia neutralizar um fuzil quando corretamente empregada, observação transformada em motivo de escárnio.
Jacqueline Muniz entra em proteção federal após ameaças
Após a repercussão, ataques misóginos e ameaças de morte migraram do ambiente digital para o cotidiano da professora. No X (antigo Twitter), ela contou ter sido fotografada em um restaurante de Botafogo, zona sul carioca, enquanto usuários incentivavam agressões físicas. Um dos comentários sugeria “tacar uma pedra” em sua cabeça, repetindo a frase editada que deu origem ao linchamento virtual.
No início de novembro, o Ministério dos Direitos Humanos incluiu Muniz no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. Desde então, sua rotina é acompanhada por equipes de segurança e suporte psicológico. A secretaria responsável afirma buscar “medidas que garantam a integridade da docente”.
Em entrevista, a especialista diz que a perseguição não é inédita. “Já sofri emboscada, precisei trocar de carro e, em 2018, saí do país entre os turnos da eleição”, lembra. São mais de 40 mil e-mails de ódio acumulados. Ela classifica o episódio atual como violência política de gênero e tentativa de censura acadêmica.
Mesmo monitorada, Muniz mantém compromissos profissionais. Nas últimas semanas, participou de um seminário na USP e de reuniões em Brasília, ambas acompanhadas pela equipe do programa de proteção. Ela diz que precisa planejar atividades simples, como ir ao teatro ou ao cinema, mas não abre mão do visual marcante — cabelo laranja, tatuagens e roupas coloridas. “Rompo com a lógica do bela, recatada e do lar”, afirma.
A UFF divulgou nota de apoio, repudiando qualquer tentativa de silenciar a professora e alertando para discursos de ódio que comprometem a liberdade acadêmica. Outras instituições seguiram a mesma linha, reforçando a importância do debate qualificado sobre segurança pública.
Formada em Ciências Sociais pela UFF, Muniz tem mestrado em Antropologia Social (UFRJ), doutorado em Ciência Política (Iuperj) e pós-doutorado em Estudos Estratégicos (UFRJ). Há três décadas pesquisa polícia, crime e violência. Atuou em delegacias, viaturas e academias de vários estados, além de dirigir a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro em 1999, quando implantou o programa Delegacias Legais.
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Para a antropóloga, seu trabalho desagrada grupos que tentam emplacar uma narrativa de “terrorismo” para justificar operações letais. Ela defende que o Estado possui superioridade bélica e logística e que não há ameaça real à soberania nacional por parte do crime organizado, posição detalhada em diversos artigos e entrevistas, como a concedida à revista Marie Claire.
Além da produção acadêmica, Muniz enfatiza linguagem acessível como parte de sua missão pública: “O cidadão não deve ler 30 teses para entender um tema que afeta sua vida”. Também destaca o protagonismo feminino na área: “Segurança pública é substantivo feminino; as principais estudiosas são mulheres”.
Mesmo com o reforço de segurança, ela garante que não abandonará a docência nem a pesquisa. “Faço o que faço por paixão e por servir”, diz, reiterando abertura para dialogar com qualquer espectro político que apresente propostas concretas para a área.
Resumo: cercada por mensagens de ódio e intimidações físicas, Jacqueline Muniz tornou-se a primeira docente da UFF a ingressar no programa federal de proteção, símbolo dos riscos enfrentados por especialistas que expõem análises contrárias a interesses políticos.
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