Louise Trotter Bottega Veneta conduz a narrativa da nova coleção inverno 2026 com volumes dramáticos, superfícies táteis e uma encenação que alia austeridade arquitetônica a sensualidade contida.
A diretora criativa examina a dualidade entre fachada e interior: formas rígidas escondem cores e tecidos vibrantes, enquanto silhuetas controladas sugerem gestos quase operísticos. A ambientação milanesa reforça essa tensão, refletindo uma cidade de linhas severas atravessada por energia discreta.
Louise Trotter reinventa volume na Bottega Veneta
O desfile ocorreu no átrio do Palazzo San Fedele, nova sede da maison. Inaugurado como teatro em 1870, o espaço foi revestido por tapetes vermelhos, colunas laqueadas e iluminação suave, homenagem direta ao antigo Teatro Sociale. Os convidados, acomodados em 421 cadeiras criadas por Max Lamb, assistiram à coleção disposta em círculo, ressaltando o aspecto cenográfico da apresentação.
Na alfaiataria feminina, o desenho de ampulheta expandida domina: ombros arredondados, mangas cheias, cintura sutilmente marcada e quadris inflados. Os casacos alongam o corpo e se abrem como cortinas, revelando saias estruturadas e calças pregueadas. O resultado dialoga com o power dress dos anos 1980, porém suavizado por curvas orgânicas e tecidos de aparência leve.
Textura é fio condutor. Trotter utiliza seda fil coupé, malhas felpudas, feltro e fibra de vidro reciclada para sugerir pelagem e relevo. Casacos em shearling composto por milhares de fragmentos aplicados manualmente ampliam a ideia de excesso controlado. Lã e seda desfiadas criam franjas que ganham vida com o movimento, enquanto o couro, material icônico da casa, surge plissado e moldado, inclusive em bolsas que lembram jornais dobrados.
Imagem: Divulgação
Referências a Maria Callas e Pier Paolo Pasolini indicam uma teatralidade contida, na qual vestir-se torna-se ato de entrada em cena. Estrutura e intimidade coexistem; a forma permanece, mas a superfície guia o olhar, consolidando a identidade que Trotter vem construindo desde sua estreia.
Para detalhes adicionais sobre a relação entre moda e arquitetura em Milão, confira a análise da Vogue internacional, que aprofunda como designers contemporâneos incorporam cenografia histórica em suas coleções.
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