Medo da morte ainda afasta grande parte dos brasileiros de conversas francas sobre o fim da vida, mas a jornalista e roteirista Camila Appel tenta mudar esse cenário em seu recém-lançado “Enquanto você está aqui” (Fósforo, 176 págs., R$ 79,90).
A autora, criadora do blog “Morte Sem Tabu”, reuniu 12 anos de apuração para discutir temas como morte assistida, suicídio, experiências de quase morte, mercado funerário e medicina paliativa, sempre com foco em autonomia e conforto do paciente terminal.
Medo da morte: jornalista lança livro para quebrar tabu
No centro da obra, Appel destrincha os processos biológicos, burocráticos e simbólicos que cercam a morte. Ela defende que “dá para morrer sozinho, mas é preciso apoio coletivo” e critica a dificuldade dos profissionais de saúde em reconhecer o momento de priorizar dignidade em vez de procedimentos invasivos.
A motivação direta para o livro veio de uma amiga que acompanhava a mãe em seus últimos dias de hospital. “Ela não queria textos sobre luto, mas sobre como é viver esse instante final. Quase não há quem escreva porque ninguém gosta de admitir que a vida acaba”, relata a jornalista.
Dados do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares (Sincep) de 2018 reforçam o tabu: 73 % dos brasileiros evitam falar sobre morte. Para Appel, a negação cultural contrasta com práticas de outros países, como o México, onde o fim da vida integra o ciclo natural, ou nações que legalizaram a eutanásia assistida, entre elas Suíça, Holanda e Portugal.
Além de relatos jornalísticos, a autora inclui vivências pessoais, como o falecimento da gata de 17 anos “que morreu se espreguiçando” e a intervenção para aliviar o sofrimento do sogro, preso a sondas e amarras por protocolo hospitalar. Ela critica a formação médica que entende a morte como fracasso e cita organizações internacionais que defendem cuidados paliativos, a exemplo da Organização Mundial da Saúde.
O livro dialoga ainda com a dramaturga Leilah Assumpção, mãe da jornalista, detalhando inclusive preferências para o próprio velório. Na adolescência, Leilah dedicou-lhe “Na palma da minha mão” (Globo, 1998); agora, a filha devolve o gesto com reflexões sobre envelhecer e morrer.
Camila Appel também dirigiu a série documental “O testamento: O segredo de Anita Harley” (Globoplay), que questiona quem deve decidir por pacientes incapazes, como a empresária em coma desde 2016 e centro de disputa bilionária pela herança. O caso ilustra a importância do testamento vital, documento reconhecido pelo Conselho Federal de Medicina que registra escolhas sobre intubação, reanimação ou alimentação artificial.
Imagem: Huds Senna
Apesar da longa convivência com o tema, a autora confessa que sua percepção sobre o que acontece depois varia: às vezes prefere a definição de Hamlet – “o resto é silêncio” –; em outras, adota a imagem de um “silêncio mineral”, citando Pepe Mujica. “Gostaria de acreditar na vida após a morte, porque conforta pensar que não vamos simplesmente desaparecer”, admite.
No Brasil, iniciativas para incentivar conversas sobre o fim da vida começam a surgir, como grupos de apoio e doulas da morte, profissionais que acompanham famílias durante a passagem. Para Appel, ouvir sem julgamento é o principal passo para lidar com o medo da morte: “A dor não se mede; perder um animal de estimação pode ser como ver o mundo desabar”.
“Enquanto você está aqui” chega às livrarias com o objetivo de abrir espaço para diálogos urgentes sobre autonomia, espiritualidade e escolhas médicas, reforçando que encarar o inevitável pode, paradoxalmente, tornar a vida mais significativa.
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Crédito da imagem: Foto: Acervo pessoal


