Mulher no mercado de trabalho: avanço e desafios em 2026

Mulher no mercado de trabalho ganhou visibilidade inédita após a Lei da Igualdade Salarial, mas dados de 2026 mostram que a distância para os homens ainda aumenta em alguns pontos, especialmente nos salários, na sobrecarga de cuidados e no acesso a cargos de liderança.

Relatórios oficiais e especialistas ouvidos pela reportagem indicam que, embora a participação formal feminina tenha subido 11% desde 2023, elas seguem recebendo, em média, 21,3% a menos do que colegas do sexo masculino em empresas de médio e grande porte.

Mulher no mercado de trabalho: avanço e desafios em 2026

Esse percentual, divulgado no 5º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios 2026 do Governo Federal, subiu três pontos em relação à primeira edição (2024). A comunicadora e orientadora financeira Amanda Dias avalia que “a desigualdade não está só no salário, mas na forma como tempo, cuidado e oportunidades são distribuídos”.

Desigualdade racial agrava o cenário

O recorte racial reforça a disparidade: mulheres não brancas ampliaram em 29% sua presença em vagas com carteira assinada, porém registraram queda no rendimento médio, de R$ 3.040,89 para R$ 3.026,66. Já mulheres brancas tiveram leve ganho de 1,14% no mesmo período.

Segundo estudo da FGV baseado em dados do IBGE, mais da metade dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, em sua maioria negras. Para 71% dessas chefes de família que se tornaram nanoempreendedoras, o negócio próprio foi a única alternativa diante do subemprego e dos salários baixos.

Acúmulo de cuidado e impacto na saúde

A Pesquisa Sem Parar 2025 revela que brasileiras dedicam 21,3 horas semanais a tarefas domésticas, contra 8,8 horas dos homens. Como resultado, 60% relatam cansaço e dores físicas, e sete em cada dez diagnósticos de depressão e ansiedade no SUS envolvem mulheres.

A diretora da Think Olga, Maíra Liguori, defende que o projeto de lei que extingue a escala 6×1 e a implementação da Política Nacional de Cuidados podem aliviar essa sobrecarga, desde que redistribuam responsabilidades entre homens e mulheres.

Maternidade ainda gera penalidades

Quase metade das trabalhadoras deixa o emprego até dois anos após a licença-maternidade, conforme estudo da FGV. Pesquisa da Catho indica que 83,7% das mães já foram questionadas sobre filhos em entrevistas, prática ilegal que revela preconceito persistente.

Para Dani Junco, CEO da B2Mamy, a extensão da licença-paternidade aprovada em março pode mudar o quadro, mas “lei sem adesão cultural não funciona”. É preciso que empresas incentivem ativamente que pais façam uso do benefício.

Acesso restrito a áreas STEAM e liderança

A presença feminina permanece minoritária em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, setores com salários mais altos. Déborah De Mari, fundadora da Força Meninas, afirma que “o sistema direciona meninas para trajetórias diferentes dos meninos desde cedo”.

No ranking global do LinkedIn sobre liderança, o Brasil aparece em 29º lugar: 32,2% dos cargos de gestão são ocupados por mulheres. A pesquisadora Thaise Xavier lembra que o crescimento quase estagnou entre 2021 e 2025, “reflexo da pandemia e da onda conservadora”.

Assédio e redução de programas de inclusão

O 19º Anuário de Segurança Pública registrou 8.353 casos de assédio sexual em 2025, alta de 6,7%. Paralelamente, empresas reduzem conselhos de Diversidade e Inclusão alegando contenção de gastos, tendência que segue o cenário norte-americano, segundo a psicóloga Jaqueline Gomes de Jesus.

Mesmo assim, o país possui arcabouço legal favorável a ações afirmativas, e organismos internacionais como a ONU Mulheres recomendam que companhias mantenham políticas de equidade para reter talentos diversos e evitar riscos reputacionais.

Na avaliação de Amanda Dias, “sem redistribuir o cuidado, combater o racismo e ampliar o acesso ao crédito em condições justas, mulheres continuarão presas a uma lógica de sobrevivência que impede a construção de patrimônio”. Hoje, o custo médio de vida no Brasil gira em torno de R$ 3.520, enquanto 80% das nanoempreendedoras negras faturam até R$ 3 mil.

Especialistas apontam que o caminho para 2027 inclui consolidar a transparência salarial, fiscalizar o cumprimento das licenças, ampliar creches públicas e fomentar o ensino de tecnologia para meninas. A permanência feminina depende também de ambientes livres de assédio e de programas de mentoria que preparem profissionais para a liderança.

Em síntese, o Dia do Trabalhador de 2026 confirma avanços, mas ressalta que a equidade de gênero no emprego brasileiro ainda é meta distante. Como resume Thaise Xavier, “é preciso comemorar cada ganho, mas não podemos nos iludir”.

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Crédito: Divulgação

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