Nayara Ferreira suspensa da liga de vôlei da Albânia denuncia ter sido afastada depois que clubes rivais questionaram o seu gênero, exigindo um teste que, segundo ela, não tem respaldo em regulamento oficial.
A jogadora mineira de 32 anos chegou a Tirana em setembro para defender o KV Dinamo em sua primeira temporada no país. Menos de dois meses depois, recebeu a comunicação de que estava fora de quadra até comprovar ser mulher cisgênero, condição já atestada por sua certidão de nascimento e por duas décadas de carreira em equipes femininas no Brasil, França, Espanha, Portugal e Arábia Saudita.
Nayara Ferreira suspensa na Albânia após gênero questionado
A decisão partiu da Federação Albanesa de Voleibol (FSHV) depois de pedidos formais dos clubes Vllaznia e Pogradec. Sem antecedente semelhante na carreira, Nayara relata que foi chamada para uma reunião com o presidente do Dinamo e informada de que precisaria se submeter a um “teste de gênero” indefinido. “Fiquei sem reação. Jogo vôlei feminino há 20 anos e nunca vivi algo assim”, contou.
Segundo a atleta, a FSHV não apresentou regulamento, protocolo médico ou justificativa técnica. O afastamento foi imediato, e a federação chegou a ameaçar retirar dez pontos do KV Dinamo caso o exame não fosse realizado. Nayara recusou o primeiro procedimento porque seria feito em clínica indicada pela federação, sem garantias de segurança ou confidencialidade, mas depois aceitou realizar o teste em laboratório particular, temendo prejuízos ao clube.
A repercussão no país foi rápida. O comissário albanês para a Proteção contra a Discriminação, Robert Gajda, classificou o caso como preconceituoso e sem base legal, lembrando que a atleta possui registro internacional regular. Em declaração ao Balkan Insight, Gajda frisou que a suspensão “foi imposta totalmente por motivos discriminatórios”.
Com a pressão da mídia local, os clubes que levantaram suspeitas recuaram publicamente, afirmando que apenas solicitaram exames antidoping. A federação também divulgou nota dizendo que conduziria “análises pertinentes” para “determinar o gênero” da jogadora, mas segue sem divulgar resultado ou prazo para o fim da punição.
O KV Dinamo, em nota oficial, criticou a medida por “falta de elementos concretos” e por atingir a dignidade da atleta. Nayara permanece sem autorização para entrar em quadra e relata impacto direto na carreira e na vida pessoal: “Na internet há comentários de apoio, mas também muita hostilidade. Na rua, percebo olhares que me avaliam dos pés à cabeça”.
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Ao mesmo tempo, a jogadora busca assistência jurídica para responsabilizar os envolvidos. “Não dá para deixarem isso impune. É discriminação clara”, afirmou. Embora ainda não tenha ingressado com ação, ela pretende levar o caso à Justiça local e a organismos internacionais do esporte.
Sem respostas da FSHV ou da Federação Internacional de Voleibol, a brasileira mantém a rotina de treinos individuais, aguarda o desfecho do exame e reforça que continuará atuando e protestando contra práticas que considera abusivas. “Vou seguir jogando, trabalhando e também protestando. Não quero que outras atletas passem por isso”.
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