Palhaçaria hospitalar serveu de ponte entre a dor e a esperança para Michelle Araujo, que trocou o luto pela missão de divertir pacientes em grandes hospitais de São Paulo.
A publicitária de 37 anos conheceu a arte do clown durante a internação do sogro, Reginaldo, vítima de câncer em 2016. Impressionada com o efeito dos palhaços na rotina hospitalar, ela se inscreveu no curso do grupo Soul Alegria no ano seguinte e nunca mais saiu dos corredores clínicos.
Palhaçaria hospitalar transforma luto em alegria a pacientes
No estágio inicial, Michelle — já batizada de Dra. Mimi Bananais — encarou a Beneficência Portuguesa de São Paulo. Ali, o encontro com o bebê Theo, de oito meses, a ensinou a enxergar o indivíduo além da doença: “olhei nos olhos dele e percebi que estávamos ali para reconhecer a pessoa, não o diagnóstico”, relembra.
Formada em palhaçaria hospitalar em 2017, a voluntária atua mensalmente ao lado de colegas que carregam o lema “o ridículo é nosso melhor amigo”. A cada visita, ela deposita na “mala invisível” tudo o que traz da rua para entrar vazia e sair repleta de histórias de superação.
O trabalho expõe o grupo a situações delicadas, como despedidas de pacientes terminais. Nesses momentos, explica Michelle, o silêncio e um abraço substituem as piadas. “Tentamos deixar um pouco de nós em cada quarto, mesmo quando não há mais tratamento”, diz.
A experiência mudou sua visão de mundo. “Aprendi a ser mais humana e gentil. Todos no hospital estão lutando por algo e muitas vezes não é só a doença”, afirma. A transformação também alcançou a família: a filha mais velha, Sofia, de sete anos, sonha em virar a “Dra. Morangais” quando crescer, inspirada pelo trabalho da mãe.
Imagem: Rafaela Michelucci
A voluntária incentiva outras pessoas a contribuírem com o ambiente hospitalar, seja como palhaço, doador de sangue ou visitante de asilos. “Cada um pode ajudar do seu jeito”, aconselha. Segundo a Organização Mundial da Saúde, intervenções lúdicas reduzem ansiedade e melhoram a adesão de pacientes a tratamentos, reforçando a importância de iniciativas como o Soul Alegria, ativo desde 2011 na capital paulista.
Para Michelle, a memória do sogro segue presente em cada nariz vermelho colocado. “Gosto de pensar que ele ficaria orgulhoso em saber que transformei a dor em alegria para outras famílias”, conclui.
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Foto: Rafaela Michelucci


