Simona Kossak transformou uma cabana sem água encanada nem eletricidade na floresta de Białowieża, na fronteira entre Polônia e Belarus, em seu laboratório a céu aberto por 33 anos a partir de 1970. A bióloga e etóloga polonesa ficou conhecida pela habilidade de interpretar o comportamento de várias espécies e por acolher animais que passaram a dividir a rotina com ela.
Do fracasso artístico à vocação científica
Nascida em 1943, em Cracóvia, Kossak carregava o peso de pertencer a uma tradicional família de pintores, literatos e poetas. Tentou seguir a carreira do pai nas artes plásticas, mas foi considerada sem talento. Também não teve sucesso nas tentativas de ingressar no teatro ou concluir a faculdade de filologia. A frustração levou-a a se matricular em ciências florestais na Universidade Agrícola de Cracóvia, onde descobriu sua verdadeira vocação: estudar a natureza.
Formada em biologia, passou a atuar como etóloga, ecóloga e professora, recebendo prêmios pelo trabalho na preservação de ecossistemas poloneses. O ponto de virada ocorreu em 1970, quando encontrou por acaso um velho casebre abandonado em Białowieża, último remanescente de floresta primária da Europa Central, reconhecido pela Unesco. “Olhei para aquela casa prateada pela lua e disse: é aqui ou em lugar nenhum”, relatou posteriormente.
Lar aberto a todos os bichos
Depois de consertar o piso e levar alguns móveis, Kossak instalou-se no local sem instalar eletricidade para minimizar o impacto ambiental. A ausência de barreiras físicas e comportamentais fez da cabana um refúgio para a fauna local. Entre os moradores mais famosos estavam:
- Żabka, fêmea de javali acolhida ainda filhote, que dormia na cama da pesquisadora;
- Korasek, corvo apelidado de “terrorista” por roubar objetos dos visitantes;
- Cola e Pepsi, dois alces órfãos criados com mamadeira;
- Uma loba habituada a deitar no colchão de casal;
- Uma rata chamada Kanalia, que se escondia na manga da blusa da dona por medo de espaços abertos;
- Morcegos do porão, observados por Kossak para prever mudanças climáticas;
- Uma corça que escolheu a cabana para parir gêmeos, posteriormente amamentados pela pesquisadora.
Em um episódio marcante, cinco cervos que a seguiam desde pequenos impediram-na de entrar em determinado ponto da mata, latindo em alerta. Ao avançar, ela encontrou rastros e excrementos de lince. “Aquele dia foi uma conquista: percebi que eu havia me tornado parte do rebanho”, contou em depoimento reproduzido no livro da jornalista Anna Kamińska.
Parceria profissional e afetiva
O fotógrafo naturalista Lech Wilczek frequentava a mesma floresta e, após um início tenso, aproximou-se de Kossak. O relacionamento durou 36 anos, período em que registrou milhares de imagens do cotidiano incomum na cabana. Esse acervo compõe a mostra Simona Kossak: Born to Be Wild, exibida até 2 de novembro na 15ª edição do festival internacional de fotografia Cortona On The Move, na Itália. O evento reúne 23 exposições de 76 artistas sob o tema “Come Together”, que explora reconciliação, ruptura e unidade.
Imagem: Reprodução
Legado científico e ambiental
Kossak destacou-se pelo compromisso em defender o habitat de Białowieża e outras áreas preservadas da Polônia. Publicou estudos sobre comportamento animal, apresentou programas de rádio e lecionou na Academia de Ciências Florestais. Faleceu em 2007, em Białystok, deixando o exemplo de convivência respeitosa entre seres humanos e vida selvagem.
As fotografias de Wilczek continuam a atrair interessados no estilo de vida radical escolhido pela pesquisadora e reforçam a mensagem de que a liberdade pode ser vivida de forma extrema, sem abrir mão da empatia com todas as espécies.
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