Raiva feminina ocupa o centro do relato de Maria, criadora dos vídeos “Blogueirinha do Fim do Mundo”. A artista afirma que esse sentimento tem sido o motor do seu humor, marcado pela frontalidade e pelo tom ácido que conquistou grande audiência nas redes sociais.
Maria admite admirar quem produz comédia de observação mais leve, mas diz que, para ela, a inspiração nasce da indignação. Segundo a roteirista, a própria estrutura das plataformas digitais reforça emoções como medo e ódio para manter usuários engajados.
Raiva feminina impulsiona humor e luta por direitos
A produtora relata ter questionado se seu impulso agressivo seria autêntico ou mero reflexo da “manipulação digital de Zuckerberg e companhia”. Ao revisitar a vida antes do algoritmo, concluiu não haver surpresa: “Eu sempre fui brava”, resume.
As lembranças começam na puberdade. Maria recorda-se da primeira menstruação, quando, acuada no banheiro, gritava enquanto a mãe tentava ensinar a usar um absorvente. Desde então, não tem evitado confrontos: já interveio em briga de casal em posto de gasolina, discutiu em set de filmagem após sentir-se desrespeitada e narrou, no programa “Que História É Essa, Porchat?”, o barraco que protagonizou aos 15 anos com uma celebridade. “Ainda bem que ela é mulher, porque é briguenta”, dizia o tio à mãe da jovem.
Para embasar sua percepção, Maria cita o documentário “She’s Beautiful When She’s Angry”, que revisita a segunda onda feminista nos Estados Unidos. A produção mostra como a indignação coletiva foi decisiva para avanços em direitos reprodutivos, igualdade no mercado de trabalho e autonomia corporal.
A roteirista reconhece o custo dessa postura: mulheres raivosas costumam ser rotuladas de histéricas, difíceis ou exageradas. Ainda assim, ela enxerga na irritação um elemento protetor. “Ser vista como alguém que reage rompe a expectativa de passividade, conveniente para quem se beneficia do nosso silêncio”, argumenta.
Imagem: Hase
Maria diz buscar equilíbrio: deseja ser percebida como educada e gentil, mas não se incomoda em intimidar quem tenta desautorizá-la. E revela sua “receita” para a ressaca moral após explosões de fúria: a certeza de que a complacência não protege ninguém.
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