Ressonância magnética para pessoas obesas: falta de acesso

Ressonância magnética para pessoas obesas ainda é um desafio no Brasil, como demonstra o episódio vivido pela influenciadora Tamyres Sbrile, 28 anos, moradora de São João da Boa Vista (SP). Com 140 quilos, ela não conseguiu concluir o exame de crânio solicitado com urgência pelo neurologista porque não coube no túnel da máquina.

A criadora de conteúdo agendou a ressonância para 28 de abril, confirmou por telefone que o equipamento suportava até 160 quilos e chegou a vestir um avental compatível com o seu manequim. O problema ocorreu quando o capacete necessário ao procedimento não se fechou sobre o busto e, na sequência, o diâmetro interno do aparelho impediu sua entrada completa, provocando sensação extrema de aperto e crise de claustrofobia.

Ressonância magnética para pessoas obesas: falta de acesso

Sem poder realizar o exame, Sbrile foi orientada a procurar um tomógrafo com túnel mais largo. O plano de saúde solicitou peso e circunferência abdominal e, dias depois, indicou a única máquina adequada na região, situada em Campinas, cidade a 122 quilômetros de distância. Até a nova data — marcada para o fim do mês — a influenciadora continua com dores de cabeça sem diagnóstico definido.

O caso reflete um problema estrutural. Segundo o Vigitel 2024, pesquisa anual do Ministério da Saúde, 25,7% dos adultos brasileiros vivem com obesidade, índice que dobrou desde 2006. Quando também se considera o sobrepeso, o percentual chega a 62,6%. Apesar desse cenário, poucas clínicas oferecem equipamentos capazes de acomodar corpos acima de determinados tamanhos, relata Rayane Souza, advogada e fundadora do projeto jurídico Gorda na Lei.

Para a ativista, a falta de estrutura abrange desde macas hospitalares reforçadas até manguitos de pressão arterial adequados. “O corpo gordo é constantemente responsabilizado, enquanto o sistema falha em garantir o mínimo”, afirma. Há registros de pacientes encaminhados a zoológicos para utilizar scanners destinados a animais de grande porte, acrescenta Souza.

Além da tecnologia insuficiente, a urgência médica intensifica o drama. Sbrile recebeu pedidos para cinco ressonâncias com contraste após apresentar nervos ópticos inflamados e dores persistentes. Como sofre de claustrofobia, o exame sem sedação era sua única opção rápida. “Se eu precisar do SAMU, não sei se caberei na maca”, desabafa.

A inexistência de legislação específica sobre equipamentos compatíveis agrava o quadro. No Brasil, a lei apenas assegura a oferta de tratamento para obesidade, incluindo cirurgia bariátrica em situações severas. Para quem encontra barreiras na rede suplementar, Souza recomenda procurar assessoria jurídica especializada para exigir o procedimento em condições seguras.

Em outros países, fabricantes já comercializam aparelhos com túneis mais amplos justamente para atender pacientes com mobilidade reduzida ou obesidade. No entanto, o alto custo e a falta de incentivos regulatórios dificultam a adoção em larga escala. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que o acesso igualitário a exames de imagem é fundamental para diagnósticos precoces e redução de custos gerais na saúde pública, conforme relatório disponível no site oficial da OMS.

No Brasil, entidades médicas defendem políticas de financiamento que permitam a atualização do parque tecnológico. Enquanto as mudanças não chegam, pacientes como Sbrile precisam percorrer longas distâncias ou lidar com a frustração de não conseguir realizar um procedimento considerado básico.

Para a influenciadora, o episódio escancara a urgência de adaptação: “A sociedade prega que corpos gordos devem emagrecer, mas sequer oferece cadeiras adequadas nas salas de espera”. Até receber o laudo definitivo, ela segue monitorando os sintomas e compartilhando a experiência em suas redes sociais, na esperança de que o debate gere mudanças concretas.

Este caso reabre a discussão sobre gordofobia institucional e ressalta a importância de infraestrutura inclusiva em toda a cadeia de cuidados, do consultório à sala de exames. Especialistas lembram que, além de prejudicar a saúde física, a falta de acesso compromete o bem-estar emocional e reforça estigmas.

Enquanto políticas de saúde não acompanham o crescimento dos índices de obesidade, recomenda-se que pacientes confirmem previamente as dimensões do equipamento e, em caso de negativa, registrem a ocorrência por escrito para garantir respaldo legal. Profissionais de saúde também podem acionar conselhos regionais para relatar ausência de recursos.

Resumo: o impasse vivido por Tamyres Sbrile evidencia a carência de ressonância magnética para pessoas obesas e a necessidade de ajustes urgentes no sistema de saúde brasileiro.

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Crédito da imagem: Arquivo pessoal

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