Rússia quer enviar ao psicólogo mulheres sem planos de filhos — essa é a nova diretriz do Ministério da Saúde russo, aprovada em fevereiro e divulgada pela imprensa local neste mês, em meio a uma crise demográfica agravada pela guerra na Ucrânia.
Segundo o documento oficial, sempre que uma paciente declarar ao médico que não pretende ter filhos, deverá ser encaminhada a acompanhamento psicológico “para desenvolver uma atitude positiva em relação à maternidade”. A recomendação não vale para homens na mesma situação.
Rússia quer enviar ao psicólogo mulheres sem planos de filhos
A medida integra um pacote de orientações para exames de saúde reprodutiva, que agora inclui a pergunta obrigatória sobre quantos filhos a mulher planeja ter. O pano de fundo é o déficit populacional: em 2024, o país registrou 600 mil mortes a mais do que nascimentos. A taxa de fecundidade, hoje em 1,4 filho por mulher, está bem abaixo dos 2,1 necessários para repor a população, que pode cair de 146 para menos de 90 milhões até 2100, segundo projeções oficiais.
Para tentar reverter a tendência, o Kremlin já havia aprovado, em outubro de 2024, uma lei que proíbe “propaganda anti-filhos”. O texto prevê multa de até 400 mil rublos (cerca de R$ 26 mil) a quem divulgar ideias favoráveis à escolha de não ter filhos, classificadas pelo governo como “ideologia ocidental” que ameaça o futuro do país.
Outras iniciativas, como restrições ao aborto, incentivo a “valores familiares tradicionais” e pagamentos em dinheiro para mães de três ou mais crianças, não conseguiram elevar a natalidade. Agora, o foco recai sobre a pressão psicológica.
Mulheres consultadas pela agência AFP criticaram a nova diretriz. A especialista em TI Maria, de 25 anos, afirmou que não se vê como mãe e condenou as ações oficiais: “Apertam os parafusos, tornam o aborto seguro inacessível e fazem lavagem cerebral. É cruel e ineficaz”. Para ela, o que faltam são garantias sociais, moradia acessível e segurança diante da guerra.
Anastasia, 29, especialista em reabilitação infantil, citou o custo de vida: com salário de 100 mil rublos mensais, diz não conseguir poupar nem para alugar um apartamento, enquanto os juros imobiliários chegam a 20% ao ano. “Primeiro, criem condições para uma mulher querer ter filhos, não a pressionem de todas as maneiras”, declarou.
Margarita, professora de inglês que não pode engravidar por razões médicas, teme ser tratada como caso psicológico: “Basicamente nos colocam no mesmo patamar que as párias”. Até mães, como a médica Irina, de 45 anos e dois filhos, questionam: “Por que forçar mulheres a gerar filhos indesejados?”.
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Especialistas apontam que a exclusão dos homens da regra reforça um padrão histórico de responsabilizar apenas as mulheres pela demografia. Para o demógrafo Igor Sokolov, ouvido pela BBC, políticas baseadas em coerção tendem a falhar: “Experiências internacionais mostram que apoio financeiro, licença-paternidade e estabilidade econômica produzem melhores resultados”.
Enquanto o governo endurece o discurso, opositores alertam para possíveis impactos na saúde mental feminina e no direito de escolher. A discussão evidencia as tensões entre intervenção estatal e autonomia individual em um cenário de guerra, sanções econômicas e incerteza sobre o futuro.
No Brasil, debates sobre incentivo à natalidade também incluem aspectos econômicos e sociais, mas especialistas ressaltam que políticas públicas eficazes passam por garantir creches, emprego e igualdade de gênero, em vez de restrições ou punições.
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Crédito da imagem: AFP


