Sobrevivente de incêndio, a paulista que enfrentou chamas em 3 de maio de 2015, revive passo a passo a noite em que salvou os três filhos e iniciou uma jornada de recomeço pessoal.
Naquela data, enquanto o então marido tocava em um show, ela dormia em casa, na Granja Viana, com Samuel, hoje com 20 anos, Damião, de 16, e a pequena Gaia, de 11. Ao acordar, viu o piso térreo tomado pelo fogo. Desceu sem proteção, abriu caminho até a porta dos fundos e, já queimada, correu para buscar ajuda da cunhada que morava na edícula. Juntas, retiraram as crianças pelas janelas.
Sobrevivente de incêndio narra renascimento após tragédia
Enquanto aguardavam o Corpo de Bombeiros, uma vizinha levou a vítima ao hospital. No trajeto, a dor surgiu com força: 30% do corpo queimado, entre rosto, pescoço, mãos e pernas. A fumaça comprometeu os pulmões, e os médicos estimaram chances mínimas de sobrevivência. Induzida a coma por um mês, ela contrariou os prognósticos: exames mostraram que a fibrose pulmonar desaparecera.
Durante os dois meses de UTI, passou por diversas cirurgias de reconstrução e completou 38 anos intubada. “Meu foco era voltar para casa”, relembra. Quando finalmente se viu no reflexo da janela do hospital, sofreu o primeiro choque com a própria imagem. A aceitação só veio após anos de fisioterapia dermatofuncional e procedimentos como a micropigmentação feita pela especialista Lu Rodrigues, indicada por médicos que também são queimados.
O acidente também expôs problemas do casamento. Em 2017, após terapia de casal, ela se separou do músico com quem viveu 13 anos. “Talvez eu não percebesse o quão ruim era a relação se não tivesse quase morrido”, diz. O fim da união marcou o início de uma nova fase: retomou a paixão pelo carnaval, passou a tocar ganzá e xequerê em três blocos e encontrou um companheiro que, há três anos, reforça diariamente sua autoestima.
Os desafios sociais persistem. Olhares curiosos e perguntas diretas, especialmente de crianças, ainda incomodam, mas ela transformou a dor em educação sobre segurança contra fogo. Segundo dados do Corpo de Bombeiros, ocorrências domésticas continuam entre as principais causas de queimaduras no país.
Imagem: Carine Wallauer
Hoje, a sobrevivente afirma não temer lareiras nem espelhos: “O que tenho é eterno, não vou viver escondida”. Entre trilhas, praia e a rotina com os filhos, encara as cicatrizes como parte da identidade — “identidade vem antes da beleza”.
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Crédito da imagem: Reprodução/Arquivo pessoal


