Tatuagem de borboleta deixou de ser apenas sinônimo de liberdade e transformação e passou a ser alvo recorrente de comentários misóginos feitos por influenciadores ligados ao universo red pill.
A onda de ataques ganhou força após a influenciadora Cecília Araújo aparecer em uma trend de casal no TikTok. Bastou a pequena tattoo em seu braço ficar visível para que o vídeo ultrapassasse oito milhões de visualizações e recebesse milhares de emojis de borboleta acompanhados de rótulos como “red flag”, “problemática” e “doida”.
Tatuagem de borboleta vira alvo de discurso misógino
Segundo Araújo, a associação negativa foi surpresa total: “Nem eu, nem ninguém que conheço tinha ouvido falar disso”. Comentários depreciativos chegaram até mesmo em registros do seu casamento. Em uma mensagem enviada ao marido da criadora, um perfil falso afirmou: “O cara casou com uma com tattoo de borboleta, puta que pariu”.
A ideia de que o desenho indicaria instabilidade emocional ou promiscuidade feminina circula em vídeos curtos produzidos por nomes da chamada “machosfera”, entre eles Thiago Schutz, conhecido como Calvo do Campari, autor do e-book “O Livro das Red Flags”. Na obra, ele lista “muitas tatuagens e piercings” como sinais de alerta em mulheres. O influenciador Raiam Santos já classificou a borboleta como marca de “mulher rebelde e emocionalmente instável”.
Por que a borboleta virou símbolo de policiamento moral
A socióloga Bruna Camilo, doutora pela PUC Minas e pesquisadora de gênero, misoginia e extrema-direita, explica que o inseto reúne atributos historicamente associados ao feminino – delicadeza, beleza e sensualidade – além de remeter a autonomia e reinvenção. “Discursos misóginos reagem justamente a mulheres que performam autonomia estética e emocional, retirando o controle do masculino”, analisa.
Munique Shih, tatuadora há quatro anos, nota que críticas às tattoos femininas também refletem o caráter masculinizado do universo da tatuagem. “Homens tatuados costumam ser ligados a força e estilo. Já mulheres tatuadas são vistas como vulgares ou menos profissionais”, diz.
Para Camilo, a categorização funciona como ferramenta de vigilância comportamental: “Cria-se a ilusão de que os homens podem decifrar as mulheres visualmente, reforçando a lógica de suspeita constante sobre o corpo feminino”. Esse mecanismo se potencializa em redes sociais, que transformam símbolos simples em memes virais, facilitando estereótipos.
Reprodução do discurso em sala de aula
A professora de português Ludmilla Costa, 29, presenciou o eco dessa narrativa entre alunos do Ensino Fundamental. Durante aula sobre símbolos, um estudante afirmou que “tatuagem de borboleta significa que a mulher já ficou com muitos homens”. Outros concordaram, citando vídeos do TikTok como “prova”. Costa, que exibe o desenho no braço após superar um quadro de depressão, alerta: “Adolescentes reproduzem esses discursos como se fossem verdades absolutas. Isso molda a forma como enxergam mulheres e relacionamentos”.
Imagem: Unsplash
Histórico de desvalorização do que é feminino
O ataque às borboletas tatuadas integra um padrão mais amplo. Roupas, maquiagem, astrologia e até gêneros musicais consumidos majoritariamente por mulheres costumam ser taxados de fúteis, aponta Camilo. “Historicamente, o controle sobre as mulheres ocorre também pela vergonha, humilhação e vigilância social. Quando um símbolo é associado a algo ‘menos digno’, muitas ajustam a aparência para evitar ataques”, conclui.
Para especialistas, minimizar esse debate como “piada de internet” ignora o ambiente cultural que legitima diferentes formas de violência. Reportagens internacionais, como a publicada pela BBC, já relacionam a difusão de discursos misóginos on-line a comportamentos abusivos fora das telas.
À medida que a polêmica se espalha, cresce o alerta sobre a necessidade de letramento digital e educação de gênero para combater estereótipos e garantir que a tatuagem de borboleta continue representando transformação – e não desculpa para imposição de julgamentos morais.
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Crédito: Reprodução/Redes Sociais


