Tremor essencial não impediu a propagandista farmacêutica Aline Ruellas, 41 anos, de retomar a própria independência. Moradora de Nova Friburgo (RJ) e criadora de conteúdo, ela vem ganhando destaque nas redes sociais ao preparar receitas sozinha, desafiando a condição que provoca tremedeira constante.
O distúrbio, que afeta entre 0,5% e 1% da população, provoca movimento rítmico e oscilatório principalmente nos membros superiores, explica a neurocirurgiã Tatiana Von Hertwig de Oliveira, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). O tremor aparece durante movimentos ou posturas mantidas sem apoio.
Tremor essencial: criadora redescobre autonomia na cozinha
Aline sentiu os primeiros sinais aos 12 anos. Na época, um endocrinologista previu que o quadro só pioraria na velhice. A vida seguiu quase sem limitações até os 32, quando uma grande empresa exigiu que ela tratasse a condição, alegando que a tremedeira transmitia insegurança. Iniciou-se então uma maratona por consultórios e medicamentos, marcada por efeitos colaterais — sonolência, queda de pressão e dores de cabeça — sem redução significativa do tremor essencial.
Do remédio à cirurgia: 15 médicos e um marca-passo cerebral
Entre os 12 e os 38 anos, a propagandista passou por 15 especialistas. Um deles classificou o tremor como nível 4, estágio avançado que compromete tarefas simples, como segurar uma xícara. A tentativa de controle incluiu oito remédios diferentes e cannabidiol, novamente sem sucesso.
A alternativa veio com a estimulação cerebral profunda (DBS, na sigla em inglês). No procedimento, eletrodos são implantados na região do cérebro onde o tremor se origina e ligados a um pequeno gerador no peito. Estimulações mensais ajudam a minimizar os sintomas, mas o processo de adaptação — que exigiu raspar o cabelo e manter várias medicações — é emocionalmente desafiador.
A cozinha como terapia e vitrine de inclusão
Por orientação psiquiátrica, Aline buscou um hobby para driblar a ansiedade. Escolheu a gastronomia e começou a gravar vídeos para o Instagram, onde o perfil @alineruellas já reúne mais de 60 mil seguidores. “Descobri que utensílios mais pesados, como frigideiras e copos, reduzem o tremor. Agora, com paciência, eu consigo”, relata.
Especialistas destacam a importância de atividades que reforcem a autoestima. De acordo com a Mayo Clinic, manter a independência em tarefas diárias contribui para o bem-estar de pessoas com tremor essencial, mesmo quando a condição é persistente.
Autonomia, rede de apoio e perspectivas
Embora a DBS tenha reduzido parte dos movimentos involuntários, Aline ainda ajusta a intensidade dos eletrodos e lida com a recuperação pós-cirúrgica. A exposição nas redes, porém, virou fonte de encorajamento: seguidores trocam dicas de adaptação e relatam progresso semelhante em tarefas domésticas.
Imagem: Divulgação
Para a neurocirurgiã Tatiana Von Hertwig, a história reforça dois pontos centrais no tratamento do tremor essencial: abordagem multidisciplinar e continuidade de cuidados. “Medicamentos, cirurgia e suporte psicológico devem caminhar juntos”, afirma.
No dia a dia, Aline mostra que a inclusão começa dentro de casa, entre panelas e temperos. Cada receita gravada prova que limitações podem ser contornadas com estratégia, utensílios adequados e, sobretudo, perseverança.
Resumo: da primeira tremedeira aos 12 anos à redescoberta da autonomia aos 41, a trajetória de Aline Ruellas evidencia que o tremor essencial impõe desafios, mas não define capacidades. Com tratamento médico, apoio emocional e criatividade, tarefas antes impossíveis voltam ao cardápio.
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Crédito da imagem: Arquivo pessoal


