Vaginose bacteriana continua sendo uma das infecções ginecológicas mais comuns, mas novas evidências indicam que o sucesso terapêutico depende de olhar para além da mulher e incluir o parceiro sexual no tratamento.
Pesquisas recentes mostram que microrganismos associados ao quadro podem circular entre vagina e sêmen, formando um “microbioma seminovaginal” que ajuda a explicar a alta taxa de recidiva — de 40% a 50% em três meses — mesmo após a prescrição correta de antibióticos.
Vaginose bacteriana: tratar o casal reduz recorrência
O distúrbio é classificado como uma disbiose do meio vaginal, caracterizada pela queda drástica dos lactobacilos protetores e pela predominância de bactérias anaeróbias. Ainda não existe causa única: fatores como estresse, obesidade, dieta gordurosa e genética ligada à imunidade local aparecem associados em parte dos estudos.
A transmissão sexual, no entanto, ganha força. Ao analisar amostras do trato genital masculino, pesquisadores identificaram as mesmas bactérias típicas encontradas em mulheres com vaginose. Essa descoberta alimenta o debate sobre classificar ou não a condição como infecção sexualmente transmissível (IST), tema que segue controverso entre sociedades médicas.
Na prática clínica, o tratamento padrão permanece o uso de metronidazol, por via oral ou vaginal. Porém, em casos recorrentes, alguns serviços já optam por estender a terapia ao parceiro. Um estudo de 2025 publicado no periódico The New England Journal of Medicine relatou menor reincidência em até 12 semanas quando homens receberam metronidazol oral e tópico simultaneamente ao esquema das mulheres.
Segundo a ginecologista Iara Moreno Linhares, da Faculdade de Medicina da USP, a decisão de incluir o parceiro ainda é individualizada, mas deve ser considerada quando a paciente apresenta múltiplas recidivas. “Avaliar o casal pode ser a chave para interromper o ciclo”, afirma.
Consequências de ignorar a vaginose
Cerca de metade das portadoras não sente nada; quando surgem, os principais sintomas são odor forte — descrito como cheiro de peixe — que piora após relação sexual ou durante a menstruação, corrimento acinzentado, prurido e ardor ao urinar. Além do desconforto, a condição eleva o risco de doença inflamatória pélvica, infertilidade tubária, infecções pós-cirúrgicas, infecção urinária e facilita a aquisição de outras ISTs, incluindo o HIV.
Em gestantes, a vaginose bacteriana pode contribuir para parto prematuro, ruptura precoce de membranas e infecções no pós-parto. As bactérias formam biofilmes que burlam o sistema imune local, tornando a erradicação mais difícil e justificando o alto índice de retorno da infecção.
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Sinais de alerta e diagnóstico
O exame clínico no consultório, que inclui avaliação do pH vaginal, costuma bastar para confirmar o quadro. Casos persistentes ou que se repetem rapidamente motivam avaliação do parceiro para checar a possível presença das mesmas bactérias no trato genital masculino.
Especialistas reforçam que, mesmo sem consenso oficial no Brasil, orientar o casal sobre higiene íntima, uso correto de preservativos e acompanhamento conjunto ajuda a reduzir a proliferação dos microrganismos e as chances de recidiva.
No cenário científico, ganha força a proposta de novos protocolos que testem diferentes combinações de antibióticos e probióticos, visando restaurar o equilíbrio do microbioma vaginal e, ao mesmo tempo, impedir a reinoculação vinda do sêmen.
Em resumo, o entendimento atual sobre o papel do parceiro masculino na vaginose bacteriana abre caminho para abordagens terapêuticas mais amplas e possivelmente mais eficientes, diminuindo o impacto da doença na saúde reprodutiva feminina.
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