Valentino alta-costura verão 2026 convida à contemplação

Valentino alta-costura verão 2026 abriu a temporada parisiense nesta quarta-feira (28) com um desfile que trocou a agitação dos flashes por um convite à observação lenta.

A coleção, batizada de “Spetacula Mundi” e criada por Alessandro Michele, usou como referência o Kaiserpanorama, aparelho óptico do século XIX considerado precursor do cinema. Divididos em pequenas salas, os espectadores acompanharam as roupas por diminutos visores, reproduzindo o ritual público de contemplação isolada proporcionado pela máquina original.

Valentino alta-costura verão 2026 convida à contemplação

No comunicado distribuído à imprensa, Michele explicou que quis “disciplinar o olhar” e desafiar o ritmo frenético da moda atual. O estilista argumenta que, assim como o Kaiserpanorama, o desfile educa o público a concentrar a atenção em cada detalhe, afastando-o da sobrecarga de imagens.

A apresentação ocorreu poucos dias após a morte de Valentino Garavani, aos 93 anos. Sem tempo hábil para alterar a coleção, Michele prestou homenagem em palavras: “O que fazemos hoje acontece dentro de uma história que não foi feita por nós”, afirmou, agora responsável por zelar por um legado que descreveu como “ética do fazer”.

O diretor criativo também exaltou os artesãos da casa, “cujas mãos guardam um conhecimento que não pode ser arquivado”. Segundo Michele, são eles que mantêm vivo o mito criado por Garavani e que dão forma às “hierofanias” — como o designer define as peças de alta-costura.

Na passarela circular, mangas volumosas, saias plissadas, tailleurs bem estruturados e cinturas deslocadas dividiram espaço com casacos imponentes, plumas, paetês e fios metalizados. A mistura reuniu referências do arquivo da grife a elementos renascentistas, ecos da era disco e acenos carnavalescos, reafirmando a multiplicidade de códigos que marcou a passagem de Michele pela Gucci entre 2015 e 2022.

Para contextualizar o conceito do Kaiserpanorama, a revista Vogue detalha que o dispositivo permitia “viajar sem sair do lugar”, exibindo imagens estereoscópicas de cidades distantes e paisagens exóticas. O estilista utilizou essa ideia de viagem imóvel para criticar a velocidade do consumo de moda e oferecer ao público uma experiência imersiva de ritmo desacelerado.

Com “Spetacula Mundi”, Michele reforça que, na Valentino, o ato de vestir pode ser uma prática de atenção plena, onde cada costura pede tempo e escuta. O resultado é uma coleção que transforma a passarela em sala de projeção e faz do espectador um viajante estático, convidado a enxergar além do óbvio.

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Foto: Divulgação

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