Teatro de Contêiner teve sua estrutura demolida no fim de março, mas artistas da Cia Mungunzá seguem mobilizados para preservar a memória do espaço que, por quase uma década, funcionou como polo cultural democrático no centro de São Paulo.
A derrubada foi executada pela Prefeitura, após disputa judicial entre o prefeito Ricardo Nunes (MDB) e o coletivo. O poder público alega ocupação irregular e ligações clandestinas de água e luz, enquanto a companhia sustenta que havia acordo de cooperação firmado em 2016.
Teatro de Contêiner: histórias de resistência após demolição
Inaugurado em 2017 na Rua dos Gusmões, ao lado da região conhecida como Cracolândia, o espaço acolheu artistas iniciantes, moradores de rua, terapeutas e empresários na mesma plateia. “Era quase um espaço utópico”, resume a atriz e produtora Virginia Iglesias.
Verônica Gentilin, também atriz e dramaturga, lembra que o contêiner não se restringia ao palco: “Estávamos em diálogo permanente com o entorno; fazíamos nossos processos a partir dele”. Oficinas, mostras e ações sociais marcaram a trajetória, incluindo parceria com a Secretaria de Saúde para atendimentos a pessoas em situação de rua durante 2024 e 2025.
A primeira ordem de despejo chegou em maio de 2025, quando o espetáculo “Elã” estava em cartaz. Desde então, a companhia tentou negociar nova área, mas considerou inviáveis os terrenos sugeridos pela administração municipal. Segundo a técnica Paloma Dantas, propostas ignoravam a necessidade de recuo para as paredes de vidro do teatro.
Mesmo sem sede, a Cia Mungunzá recebeu apoio da Fundação Nacional de Artes (Funarte) e do Ministério da Cultura, que disponibilizaram espaços até o fim do ano. “A lata morre, mas a alma continua”, afirma Gentilin, confiante em novo endereço para os contêineres.
Em nota, a Prefeitura informou que repassou R$ 2,5 milhões às atividades do grupo, ofereceu quatro locais alternativos e que os bens estão armazenados em depósito municipal. O terreno, diz a gestão, será destinado à construção de moradia popular e área de lazer. Detalhes da decisão podem ser conferidos na cobertura da Agência Brasil (agenciabrasil.ebc.com.br).
Para Virginia Iglesias, a demolição expôs uma “ode à não cultura”. Ela recorda que, na pandemia, o palco serviu de base para a distribuição de marmitas a pessoas vulneráveis. “O primeiro baque foi o lacre do espaço; o último, a derrubada sem aviso prévio”, comenta.
Imagem: Acervo Mungunzá
Quando as máquinas chegaram, integrantes da companhia viajavam de São José do Rio Preto a São Paulo. Eles souberam da demolição por imagens enviadas por amigos. Em minutos, apoiadores lotaram a rua, evidenciando a importância do espaço além da própria companhia.
Apesar do luto, artistas enxergam renascimento. “Onde tiver chão, haverá teatro”, diz o produtor Lucas Bêda. A meta agora é encontrar terreno que comporte a estrutura dos contêineres e permita manter o diálogo com a comunidade — essência do projeto desde o início.
Para acompanhar as futuras etapas da Cia Mungunzá e saber como apoiar, os interessados podem seguir as redes sociais do coletivo ou consultar editais culturais abertos.
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Foto: Roberto Setton


