Sexo entre mulheres ainda é, para muita gente, explicado por categorias como “ativa” ou “passiva”, mas relatos de lésbicas e bissexuais indicam que essa divisão pode limitar o prazer e reforçar estereótipos herdados da heteronormatividade.
Para a jornalista Camila Marins, 41 anos, a lógica binária “quem faz” x “quem recebe” não se aplica às dinâmicas sáficas. “O prazer é um diálogo”, afirma. A professora Natália*, 28, concorda e prefere falar de gostos específicos — BDSM, voyeurismo, dominação — em vez de adotar rótulos fixos que, segundo ela, “não dão conta da complexidade do desejo”.
Sexo entre mulheres: ativa, passiva ou liberdade total?
Historicamente, a comunidade lésbica já utilizou termos como butch e femme, populares nos bares dos Estados Unidos entre as décadas de 1940 e 1960, para expressar identidade e pertencimento. A associação direta dessas expressões aos papéis sexuais surgiu depois, influenciada por padrões heterossexuais, conforme apontado pela ativista Joan Nestle na coletânea “The Persistent Desire”.
Na prática, definir quem “conduz” e quem “recebe” pode criar barreiras. A estrategista de redes sociais Jussara Nascimento, 29, lembra de um relacionamento em que não havia troca: “Eu não podia nem encostar nela. Foi frustrante”. Natália viveu situação parecida com uma parceira que insistia em ser sempre ativa: “Só com muita conversa isso mudou”.
Esses depoimentos reforçam que a pressão pode vir até de dentro da própria comunidade. “Se você performa mais feminilidade, esperam que seja passiva”, destaca Jussara. Já a jornalista Rose Rossi, 37, que se identifica como desfem e curte ser passiva, conta que seu gosto chega a virar piada, evidenciando como estereótipos atravessam o afeto.
Para a analista de qualidade social Victória Faria, 28, o sexo entre mulheres deve priorizar consentimento e comunicação. “Se alguém te pede algo que pareça obrigação, isso já é um sinal de alerta”, diz. Ela avalia que nomear preferências pode ajudar iniciantes, mas frisa que suas relações “nunca foram marcadas por divisões rígidas”.
Especialistas em sexualidade defendem esse mesmo caminho. Pesquisadores do Instituto Kinsey apontam que o autoconhecimento e a conversa aberta aumentam a satisfação sexual em todos os cenários afetivos. Em material publicado pela Organização Mundial da Saúde, o órgão ressalta que práticas consensuais e informadas reduzem riscos físicos e emocionais.
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Na avaliação de Camila, rótulos podem ter valor histórico, mas não devem impedir a liberdade de experimentar. “Vai haver momentos em que quero ser mais passiva e outros em que prefiro conduzir. Importa é que as duas saiam felizes”, diz. Natália concorda: “Não faz diferença quem ‘foi ativa’ depois que todo mundo goza”.
Diante dessas vivências, a conclusão recorrente é que prazer e satisfação no sexo entre mulheres dependem menos de papéis fixos e mais de diálogo, empatia e curiosidade mútua. O convite é substituir perguntas engessadas — “você é ativa ou passiva?” — por conversas que explorem limites, fantasias e consentimento.
Seja qual for a preferência, o ponto de convergência é construir um espaço seguro para testar novas sensações sem medo de julgamento. Afinal, como resume Camila, “o desejo é fluido, e a única regra que vale é a combinada por quem está envolvida”.
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